[RESENHA] Ensaio sobre a cegueira - José Saramargo

Titulo: Ensaio sobre a cegueira
Autor: José Saramargo
Editora:Companhia das Letras
Ano:1995
ISBN:9788571644953
Avaliação: 9.8/10

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

Esta com toda certeza, não será apenas uma resenha. Ensaio sobre a cegueira é um dos livros mais conhecidos do autor português José Saramargo.

Ensaio sobre a cegueira conta a vida de um senhor de trinta e oito anos que perde a visão de forma repentina enquanto trafegava pelas ruas de uma cidade qualquer. Ao perder a visão o motorista recebe ajuda de pessoas que se comovem sua situação, mas acaba por ter seu carro roubado e como consequência o bandido acaba ficando cego também.

O homem imediatamente recebe cuidados até a sua casa e é recebido com muito amor pela sua família que o trata logo de leva-lo até o médico para ver qual a causa dessa cegueira tão repentina que pegara o homem de forma desprevenida. 

Com uma cegueira que chega do nada e sem explicação para tal, o oftalmologista faz uma série de exames para tentar entender como um olho que aparentemente não sofre nenhuma atrofia, tem sua visão prejudicada assim do nada, porém, o oftalmologista acaba sendo acometido de forma direta e sem rodeios pela doença que logo infecta todo o seu consultório e todos os pacientes lá em repouso, aguardo ou internados. 

Todos começam a sofrer com o mau da doença, exceto uma pessoa, a mulher do motorista de trinta e oito anos.

***

Resenha: Acabei tendo por mim duas de várias interpretações que pude ter com o texto levando em consideração diversos fatores, entre eles a história de vida do autor responsável pela obra.

Vivemos em uma sociedade a onde todos estão sempre muito ocupados fazendo seus planos e trilhando seus caminhos mecânicos e monótonos da vida sem ao menos olhar para o lado. Vamos para casa, ao trabalho, as compras, a casa de amigos, fazemos tudo o que uma pessoa normal faria, com exceção de uma coisa: Olhar para os lados.

Quando você decidi olhar para o lado, você decidi ver de fato o que está acontecendo ao seu redor, se as pessoas precisam da sua ajuda, se alguém ofusca a sua vista em uma tempestade ou em um problema aleatório com o motor do carro em uma estrada qualquer. 

Podemos ter conosco então que a ideia de Saramargo era mostrar uma sociedade que não se importa com o próximo e que a epidemia em questão no livro nada mais é do que o retrato de boa parte da sociedade dos dias de hoje. Boa parte, mas não em sua totalidade - A mulher do motorista, se lembra? Ela representa o outro lado da sociedade que se importa com o próximo. 

Mesmo tendo conhecimento da epidemia e do perigo que corria em se aproximar do seu marido ou continuar com sua família, ela não se preocupa consigo mesma, ela está centrada no próximo e no que ela pode ajudar e ser útil, o tempo todo ela quer apenas uma coisa: A cura do marido.

CARTAZ DO FILME "ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA"

uma outra interpretação que podemos ter do livro é mais abrupta (instantânea) e foi a mais obvia para mim.

Saramargo para quem não sabe é ateu declaro, e obviamente, eu sempre soube disso. Quando li ensaio sobre a cegueira eu não tive o primeiro pensamento, a primeira interpretação voltada para a sociedade da forma como citada acima, mas levei muito em consideração a religião.

Podemos dizer que o motorista do carro é apenas um motorista no seu dia-a-dia que fica cego pelas "verdades" absolutistas proferidas pela igreja, o que acaba por vez que fechando a sua mente. 

A mulher do motorista pode ser que seja uma personagem religiosa também de uma denominação qualquer, mas ela tem um diferencial: Ela se preocupa com ela mesmo e com o próximo de forma que os dogmas e leis e regras e conjunto de comportamento religioso não afete sua relação com as pessoas que se encontram fora desse círculo que acabara de infectar todo mundo.

Essa conclusão foi tomada logo no prólogo do livro na pag. 3, onde diz:

Um homem subitamente deixa de ver, vítima de uma cegueira branca, que começa a se espalhar, causando caos na cidade. Mas será que o caos foi causado pela cegueira? Ou o caos já existia, mas só "visto" com a chegada da cegueira? (pag. 03)

Será que o caos foi causado pelo fanatismo ou a sua viralização foi motivo que tornou as pessoas fanáticas? Ou seja: Tudo começa com uma pessoa e vai se espalhando para as outras. A religião sempre existiu, mas de certa forma sempre tem um que começa a pregar e a espalhar, e este um foi responsável por toda a epidemia que veio em seguida, causando assim - O fanatismo.

É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos. (pag. 45)


A visão segundo Saramargo

O próprio autor já se posicionou sobre sua escrita, declarando:

"Esta é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma as experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."

A crítica da grande maioria dos leitores se resume em:

Esta obra de José Saramargo, faz uma instensa crítica aos valores da sociedade, e ao que acontece quando um dos sentidos vitais falta à população.

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