[RESENHA] O Evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramargo

Título: O Evangelho segundo Jesus Cristo
Autor: José Saramargo 
Editora: Companhia de Bolso
Páginas: 374
Ano: 2005
Avaliação: 9.8/10

Sinopse: Menos interessado na onipotência do divino que na frágil mas tenaz resistência do humano, Saramago reconta de forma irônica e crítica uma das histórias mais conhecidas no ocidente, dotando-a de corpo, cheiro, sensações, ambiguidades e novos significados recônditos.

Autor, Português e ateu declarado. O evangelho segundo Jesus Cristo é um dos livros considerados pela maioria das pessoas como um dos livros mais blasfemos da história, e isso tudo por que nosso querido Saramargo propõe nesta obra maravilhosa uma visão que todos ignoram: Um Jesus humano.

O livro é indicado por quase toda instituição religiosa proselitista como sendo inadequado para leitura, o que me impressiona é - Se é inadequado lê-lo, por que cita-lo em um culto religioso? Na minha concepção isso só aumenta a vontade das pessoas de ter acesso a obra e obter o conhecimento daquilo o que elas não devem conhecer. 

O fato é que a própria bíblia diz que Jesus se fez carne:

João 1:14, comentando sobre Jesus, diz: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.

E a palavra carne não tem um significado muito amigável e majestoso nas escrituras, podemos ver isso em: 

Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor.  -  Gálatas 5:13

Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos. - Gálatas 5:24 [De fato, crucificaram]

"Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca."  - Mateus 26:41

E um outro versículo tremendamente poderoso sobre a carne:

O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. - João 3:6

Toda a obra de José Saramargo para os leigos ou inescrupulosos que acusam o livro de blasfêmia se resume em um único trecho de toda a sua obra, sendo ele:

O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. (Pág. 65).

Você pode interpretar o livro de duas formas:


1. Acreditar que José Saramargo escreveu tudo isso acreditando ser a absoluta verdade que ninguém abre os olhos para enxergar.
2. Pesquisar fontes confiáveis sobre a obra para formalizar seus pensamentos em relação à escrita e desenvolver do livro.
Em algum lugar do infinito, ou infinitamente o preenchendo, Deus faz avançar e recuar as peças doutros jogos que joga, é demasiado cedo para preocupar-se com este, agora só tem de deixar que os acontecimentos sigam naturalmente o seu curso, apenas uma vez ou outra dará com a ponta do dedo mindinho um toque a propósito para que algum acto ou pensamento desgarrados não quebrem a implacável harmonia dos destinos. (Pág. 258).

Saramargo expõe sua ideia contra algumas crenças exacerbadas por parte do povo, o trecho: "Ou dará com a ponta do dedo mindinho um toque a propósito para que algum ato ou pensamento desgarrado não quebrem a implacável harmonia dos destinos", nos revela que:

1. Saramargo tem uma sensibilidade extrema na escrita ao falar de um assunto tão delicado. A forma como a qual lida com o "fato" de o que você faz irá de fato fazer com que Deus mude as peças do jogo de lugar implicando na ironia do seu destino - do destino? Não, do seu destino- . 

2. "de propósito", você não controla absolutamente nada como pensa, e o absolutismo de você sobre a sua vida, não existe. "Deus" é quem controla tudo, o tempo todo. E onde fica o livre arbítrio nessa história ?

Uma outra passagem linda do livro, é esta:

Mas, sendo o pão dos homens aquilo que é, uma mistura de inveja e de malícia, alguma caridade às vezes, onde fermenta um fermento de medo que faz crescer o que é mau e atabafar-se o que é bom, também sucedeu brigarem companhas e companhas, aldeias e aldeias, porque todos queriam ter Jesus só para eles, os outros que se governassem conforme pudesse. (Pág. 273).

Essa passagem deixa claro que a religião poluiu o mundo, as pessoas começaram a guerrear, brigar, matar, destruir por consta de algo supérfluo. "Todos queriam ter Jesus só para eles, os outros que se governassem conforme pudesse". - As pessoas criaram uma dependência em um ser que elas acreditam profundamente e esquecem que elas tem essa capacidade de se organizarem e de se controlarem, como sendo, as criaturas mais inteligentes existentes no mundo até hoje. 


…Filho, a ocasião pode sempre criar uma necessidade, mas se a necessidade é forte, terá de ser ela a fazer a ocasião. (Pág. 265).
E eu ainda me pergunto: Em qual ocasião se fez necessário a religião ?

Como se não bastasse a própria escritura afirmar que Jesus veio ao mundo nascido de uma mulher e como "carne", ela diz também que ele foi para glória e que um dia irá voltar com todo o seu poder. Mas, só temos essas palavras para afirmar que ele irá voltar, que bases sólidas de estudo ou grupos de debate ou qualquer outra fonte temos para testificar de que isso é de fato verdade?

E o mais estranho é que os teólogos precisam idealizar uma imagem sem defeitos, sem distorções de alguém completamente santo e maravilhoso, divino e surreal para cultuar, indo contra o princípio da verdade que eles mesmo dizem seguir. - Seria então as escrituras um livro a onde você só segue o que te convêm ?

E o fato dos teólogos não usarem destas informações em suas ministrações e palavras proféticas implica novamente em um novo versículo, sendo ele apocalipse 22:19, que diz:


E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro. - Apocalipse 22:19
Não existe meia verdade e nem verdade absoluta. A verdade  tem apenas uma face, quando você priva os seus fiéis da outra parte da verdade, ela automaticamente se torna mentira. E novamente a religião condena a mentira.

Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.  - Colossenses 3:9-10

***
O livro de José Saramargo é sem a menor sombra de dúvidas: Uma verdadeira obra de arte que deveria fazer parte do acervo de todo e qualquer brasileiro.

374 páginas de pura poesia e pensamentos óbvios nos quais as pessoas procuram ensurdecer-se para não ouvir aquilo o que bate de frente com sua realidade. Foi publicado pela editora  Companhia de bolso em 2005 e é, e sempre será, um sucesso absoluto.
[RESENHA] O Evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramargo [RESENHA] O Evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramargo Reviewed by Vitor Lessa on segunda-feira, julho 04, 2016 Rating: 5

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