[FILOSOFIA #349] PARA QUE FILOSOFIA?


Ora, muitos fazem uma outra pergunta: "Afinal, para que filosofia?". É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, "Para que matemática ou física?", "Para que geografia ou geologia?", "Para que biologia ou psicologia?", "Para que astronomia ou química?", "Para que pintura, música ou dança?". Mas todo mundo acha muito natural perguntar. "Para quê filosofia?".

Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de filosofia: "A filosofia é a uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual". Ou seja, a filosofia não serve para nada. Por isso, costuma-se chamar de "filósofo" alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são completamente inúteis. Essa pergunta "para quê filosofia?", tem sua razão de ser. E nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática muito visível e de utilidade imediata. Quando se pergunta "Para quê?", o que se pergunta é: "Qual a utilidade?", "Que uso proveitoso ou vantajoso, posso fazer disso?".

Eis por que ninguém pergunta "Para que as ciências?", pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica. Ninguém, todavia, consegue perceber para que serviria a filosofia. Parece que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade por meio de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progresso nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os. Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõe que elas admitem a existência da verdade, a necessidade de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, o estabelecimento da tecnologia como aplicação prática de teorias, e, sobretudo, elas confiam na racionalidade dos conhecimentos. 

A filosofia  seria a arte do bem viver ou da vida correta e virtuosa. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o principio do bem viver.

Essa definição da filosofia, porém, não nos ajuda muito. De fato, mesmo para ser uma arte moral ou ética, ou uma arte do bem viver, a filosofia continua fazendo perguntas desconcertantes e embaraçosas: "O que é vontade?", "O que é paixão?", "O que é razão?", "O que é vício?", "O que é virtude?", "O que é liberdade?", "Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos?", "Por que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos?", "Por que avaliamos os sentimentos e as ações humanas?".

Assim, mesmo que disséssemos que o objeto da filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade de conhecer, mesmo que disséssemos que o objeto da filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - O quê, por que e como - Permanecem.
[FILOSOFIA #349] PARA QUE FILOSOFIA? [FILOSOFIA #349] PARA QUE FILOSOFIA? Reviewed by Vitor Lessa on sexta-feira, novembro 11, 2016 Rating: 5

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