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[ENTREVISTA] Pedro Ivo — Autor de "Espelho das cores"

Pedro Ivo | Divulgação | Acervo Pessoal
Pedro Ivo (34) é brasiliense, professor da Secretaria da Educação do DF, licenciado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB), especialista em Educação para os direitos humanos na diversidade cultural e mestre em Educação e Linguagem e Tecnologias, pela Universidade Estadual de Goiás. E claro, autor do livro "Espelho das cores". Hoje Pedro abre seu coração e sua vida, e nos conta como nasceu suas inspirações para realização de sua obra, e claro, seus futuros projetos. Confira:


1. Como nasceu o seu relacionamento com a escrita? 

Percebi que escrever era algo pra mim na universidade. Cursei Letras entre 2002 e 2007 e durante o curso comecei a notar que minha expressividade era melhor por escrito que nas relações sociais diárias. Isso se deveu a experiências negativas sofridas na adolescência contra minha identidade racial e de orientação sexual e que refletiram na minha vida adulta, mas das quais soube tirar proveito, pois  trouxeram entendimento acerca do mundo (sobre suas tristezas, hipocrisias, mas também alegrias) que contribuíram pra minha escrita. Comecei, assim, o processo de representar de maneira literária essas diversas experiências, tanto em relação aos trabalhos acadêmicos como por meio de poemas e contos escritos inicialmente para aliviar a tensão do dia-a-dia. 

Lançamento do livro "Espelho das cores"
2. Qual foi o primeiro livro que você escreveu? E como surgiu a ideia de escrever um livro? 

Em 2007, iniciei um processo de 7 anos de escrita do livro "Espelho das Cores" - que foi publicado somente em setembro de 2015 -, juntamente com poemas que compuseram um segundo livro, publicado no ano seguinte - "Amores, Angústias e Flores: poesias escolhidas" -, ambos refletindo aquelas vivências que tive. Além disso, esse processo foi de transformar em literatura as experiências vistas e ouvidas todos os dias de pessoas próximas a mim, sempre associando-as ao conhecimento teórico-acadêmico que estava obtendo naquele período. Nesse meio tempo, percebi que, mais que um sonho próprio, o ato de escrever era uma forma de alcançar aqueles e aquelas que passaram - e ainda passam - por acontecimentos similares ao que vivenciei, a fim de fortalecer identidades, autoestima, senso de humanidade nas pessoas que porventura tivessem contato com meus textos, principalmente as que tiveram experiências como as minhas e que foram atingidas por elas de maneira negativa.

3. Quais suas principais inspirações literárias?

Sempre me impressionou a escrita de Guimarães Rosa, sua pontuação "inadequada", que se aproxima da fala do sertanejo: seca, dura, ao mesmo tempo profunda e poética. Ele certamente é uma inspiração para mim. Ao lado da forma roseana, a crítica desafiadora - e muito anterior a Guimarães - de Lima Barreto, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, gênios que problematizaram questões sociais bem antes do Facebook (os coxas daquela época também achavam que tudo era "mimimi"). Mas o que me chama atenção nesses revolucionários das Letras? Eles não se calaram diante das críticas destrutivas que receberam, mas seguiram em suas convicções até o fim - uns mandados à força pro hospício, outros definhando até a morte e sem reconhecimento ou mesmo "expulsos" do País.  Para mim foram heróis, extrapolaram seu métron (quem conhece Literatura Clássica vai entender o que digo, mas qualquer coisa joga no Google :] ). Não poderia esquecer de Audre Lorde, poetisa estadunidense feminista negra lésbica, ícone que me inspira todos os dias com suas poesias e ensaios fortes, marcantes, socialmente desafiadores. Contemporaneamente, fico com Cassandra Clare, pela sua constante luta em manter a representatividade de minorias sociais através de seus personagens e a crítica social que faz, bem como a forma mágica que conduz a imaginação do leitor na representação de tudo que descreve em sua maneira de escrever. Bem, posso dizer que me sinto completamente impelido por essa força criativa e crítica que motivou todos esses autores que citei... Hoje penso que também encaro como extremamente necessária a problematização sobre aquilo que a hegemonia ocidental eurocêntrica tenta padronizar e homogeneizar na sociedade - não é à toa a crítica que faço por meio dos temas ligados à homoafetividade e também às questões étnico-raciais negras e de classe em meus livros e contos.

4. O que você considera mais difícil durante a escrita de uma história?

Ser capaz de entrelaçar reflexões, problematizações e filosofias com o enredo e as falas das personagens, sem parecer algo pedante ou desinteressante. Este é um trabalho que exige um bom domínio da linguagem e de suas nuances, pois a colocação das palavras, das expressões, de modo a gerar humor, ironia, ou ainda de deixar subjacente uma convicção ou reflexão, é um trabalho que não é tão trivial como qualquer youtuber acha que pode fazer. Agora se for só pra vender e viralizar na Internet e reerguer mercado editorial, sedento por qualquer coisa que o tire da recessão em que se encontra, aí é muito fácil... #prontofalei

5. Quando decidiu se tornar escritor?

Isso se deu ao longo da escrita de "Espelho das Cores", depois de muitos feedbacks dos meus amigos no meu blog em que publicava os capítulos e também poemas e contos. Foi quando percebi que existia um dom de tocar almas com as palavras que nem mesmo eu sabia que possuía. Bem, este foi meu processo para me tornar escritor, o que não dependeu, é claro, só de uma questão de "decidir" me tornar um, mas de toda uma articulação entre publicação e reconhecimento. Sou um escritor com obras publicadas, com um sonho realizado e não me arrependo disso, independente de minhas obras terem ou não tido expressividade nacional. 

6. Qual de seus personagens você mais gosta?

O Gabriel é um personagem querido. Apesar de meio pisciano no drama às vezes, encontro muito potencial nesse personagem porque ele transita de um simples adolescente sem muitas perspectivas para alguém que toma as rédeas da própria vida (e vamos evitar spoilers). Mas também amo a loucura da Diana; precisamos de pessoas mais verdadeiras com suas emoções como ela. Além dela, a Clara, que sabe bem quando não levar desaforo pra casa (eu ri sozinho agora, não posso dizer por quê).

Livro "espelho das cores"
7. Como você sente quando recebe um comentário positivo acerca de sua obra?

Me sinto dançando Déjà vu com a Beyoncé ou quando rola aquele rock alternativo anos 80 na pista, com direito a rodinha punk. #rialto 
Brincadeiras à parte, sinto como se tivesse alcançado o meu objetivo com aquela história, como se tivesse ajudado a resgatar algo perdido em alguém que precisava. Acho fantástico quando percebo que sou parte desse processo.

8. Pretende escrever novos livros? Tem algum projeto em mente chegando?

Tem muita gente me pedindo para dar continuidade a "Espelho das Cores". Andei ensaindo alguns esquemas para isso, talvez dê prosseguimento. Por hora o projeto mais concreto é meu terceiro livro, de contos, em que trabalho com histórias de vida, mas não vou revelar muito ainda porque estamos no começo...

9. Qual gênero literário você mais se identifica?

Pode parecer meio louco - porque nunca publiquei nada a respeito - mas falou que envolve magia, seres mágicos, anjos e demônios, instrumentos mortais e Cassandra Clare eu tô dentro #fikadika. Pensando bem, escrevi uma fanfic de umas 80 páginas com base em The Mortal Instruments, chamada "Crônicas Parabatai: o livro, o lobo e o feiticeiro", publicada no Nyah! e no Spirit, sites de fanfictions (inclusive enviei uma cópia pra Cassandra Clare, a pedido dela, o que foi com ir ao Céu e voltar). Trata-se da história de Shadowhunters no Brasil, em que eu e meus amigos - obviamente - somos personagens nesse roteiro.

Pedro Ivo | Lançamento do livro "Espelho das cores"
10. O que você diria para as pessoas que estão conhecendo tanto você, quanto a sua escrita agora?

Olaaar tenho interesse! :D

Este sou eu sempre: brincalhão, bem-humorado (tá, quase sempre...). Fico feliz que acompanhe esta entrevista e espero que possa se interessar pela leitura de minhas obras e entrar nas discussões que tento trazer à tona com minha escrita. Agradeço demais pela atenção e convido a visitar minhas redes sociais e participar comigo dos novos projetos, com sugestões, críticas e debates que pretendo sempre promover. Busque sempre na Literatura um conforto para sua alma e aprenda a enxergar o mundo com novas lentes sempre. Agora, tomando emprestada a frase de Lygia Fagundes Telles, preciso pedir, jovem leitor: "me leia, não me deixe morrer!".

11. O que as pessoas devem esperar da sua escrita?

Amor, paixão, desilusão, coragem, fé, amizade, representatividade, humor, choque... Um diálogo com a atualidade em busca do entendimento do outro, da empatia e compreensão humana que vemos cada dia menos acontecer. 

12. Qual passagem do seu livro te marcou mais? Existe um trecho que você goste mais que os outros?

"O ser humano engana-se inutilmente ao tentar fugir de si. Quanto mais nega seu interior, mais este se revela exteriormente". 

Você pode conferir este trecho ampliado no trailerbook de "Espelho das Cores" acessando: <https://goo.gl/TqN8Qp>. 

13. Como foi a recepção do público com relação ao seu primeiro livro?

Bem, como disse antes, tornar-se escritor não depende só da simples vontade, depende de uma articulação entre publicação e reconhecimento. Comecei em 2007 o projeto do primeiro livro. Nesse processo, parei, retomei, desisti, quis jogar fora, recomecei. Após 7 anos, vi a obra concluída, mas outra luta se iniciou: a da publicação. Mandei os originais para diversas editoras, as quais negaram. Inclusive as que acharia que de cara aceitariam - porque publicavam literatura LGBT, e meu livro tratava sobre relacionamentos homoafetivos - também os negaram sob as desculpas mais genéricas... Foi a última editora que aceitou, entretanto mediante um contrato em que os custos da produção de tiragem era toralmente a meu cargo - e isso é uma realidade em todas as editoras que trabalham com autores novos, variando o preço que esse autor paga pela sua tiragem impressa. Como não sou nenhum youtuber que decidiu escrever qualquer coisa aproveitando a visibilidade na Internet e o número de "likes", ou alguém com expressivo nome no cenário literário, acadêmico ou virtual, nenhuma editora se propôs a assumir os custos da obra. Paguei pela produção. Não me importava que pagasse; queria ver o meu sonho realizado. Posso até dizer que me realizei em alguns aspectos nesse sentido: entrevistas pra jornais online; indicação ao Prêmio Papomix da Diversidade 2016, em São Paulo, na categoria literatura LGBT... Reconhecimento acadêmico, com minha obra sendo usada em disciplinas de extensão e de cursos de graduação na UFG e na UnB; reconhecimento da UEG, em que atualmente sou mestrando, com um convite para lançar meu livro lá; reconhecimento do Movimento LGBT de Brasília, com um convite pra compor uma mesa-redonda de escritores LGBT. Acho tudo isso muito legal, mas sem a expressividade no cenário nacional. E por quê? Por que não foi uma grande editora que publicou a obra, meu tema e meu nome não lhes dá dinheiro. Não posso julgá-las, quem tem uma empresa quer ver seu produto no mercado. Comigo isso não iria acontecer.

Espelho das cores | Reprodução
14. O que te inspira a continuar escrevendo?

A possibilidade de encontrar outras pessoas que vivenciaram preconceitos e discriminações como eu vivenciei, conversar com elas e trocarmos empatia, afetividade, conscientização, empoderamento, isso é o qie me motiva, mesmo que não seja em escala nacional ou mundial. A diferença positiva que posso fazer para uma única estrela-do-mar que devolvo ao oceano é mais poderosa do que a minha incapacidade de devolver todas as outras de uma só vez. 

15. O que você diria para alguém que está iniciando a escrita do seu primeiro livro?

A Literatura é uma das porta mais seguras para a descoberta de novos conhecimentos, novos saberes e novas emoções. Aprenda a exergar o mundo pela lente da Literatura e será capaz de enfrentar a realidade com coragem e determinação.  Avalie o que sua história está solicitando de você, dos seus personagens e não se engane: é a história quem guia a mão do escritor; ela quem dita os acontecimentos seguintes e quando será necessário encerrá-los, não é apenas a sua técnica, tampouco o seu racionalismo. Escrever é lançar-se no escuro (mas com muito trabalho de revisão textual, de trabalho com coesão e coerência, portanto se capacite!).

16.Na sua opinião: Qual o pior erro que um autor pode cometer durante a escrita do seu primeiro livro?

Escrever algo sem responsabilidade social, sem ética, sem propósito que não se revele ao longa da história, sendo apenas uma escrita que reforça estereótipos e padrões normatizadores... Este é o pior erro de qualquer escritor, sendo novato ou não. Não acredito que estamos nesta vida, neste momento histórico e social, com o domínio da escrita que tão poucos detêm, para que o uso desta Arte seja rebaixado a reforçar a mediocridade da hegemonia ocidental racista, classista, misógina, machista e heteronormativa. Quando percebo um escritor que é só "mais um do mesmo" empurrado pela onda normatizadora da sociedade, eu imagino Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Pagu, Manoel Bandeira e tantos outros artistas brilhantes se revirando no túmulo sem ter paz! Não podemos esquecer o que foi plantado neste País com a Semana de Arte Moderna, ou ainda com a resistência artística no período da Ditadura Militar décadas depois... Portanto, em resumo, um escritor novato que pensa em escrever uma obra, seja de que gênero for, precisa compreender a responsabilidade que tem com a transformação individual e social do seu leitor: não são apenas palavras justapostas que caracterizam bons personagens e bons enredos, mas sim conceitos que despertam senso de humanidade, empatia, alteridade, contra-hegemonia em sua originalidade.

Pedro Ivo | Reprodução

17. onde podemos encontrar seus livros para compra? Qual você indica que nossos leitores conheçam primeiro?

Na Livraria Leitura, do Taguatinga Shopping - DF; na Livraria Ca D'ori, em Juiz de Fora - MG; no site das editoras Litteris e editora PerSe. Mas a dica mesmo é que sejam adquiridos no meu site <http://www.pedroivoautor.com.br> a preços promocionais ou por meio de contato via Facebook, na fanpage <www.facebook.com/espelhodascores>, e do IG do Instagram @espelhodascores. Nestes meios ofereço descontos até a metade do preço e o trato é diretamente comigo, então os livros vão com dedicatória e autografados. #fikadika Pedro Ivo O ser humano engana-se inutilmente ao tentar fugir de si. Quanto mais nega seu exterior, mais este se revela exteriormente. pedroivoautor.com.br 

18: Qual a sua opinião sobre a literatura nacional nos dias de hoje? Acha que é bem divulgada pelos blogs literários e editoras?

A literarura nacional é grandiosa, instigante, maravilhosamente bem-construída e com grande expressividade internacional. O que ainda me incomoda são os supostos "novos escritores de literatura", que sem conhecimento algum sobre o que signifique a literatura nacional para o País ou sem qualquer conhecimento teórico literário, são lançados pelo mercado e passam a viralizar sob a condição única de que estão "dando retorno" para este mercado. Qualidade literária? Problematização social? Conceito artístico? Não, isso não é necessário para o mercado literário. Faça um canal no Youtube de humor; faça as pessoas rirem com boçalidades; tenha condições de "discutir" com princípios bem conformistas ou discursos banais sobre qualquer assunto atual na Internet, ou ainda viver de "crítica literária" sem embasamento algum senão sua própria opinião, e ganhar centenas seguidores, pronto! Receita mágica para vender e tirar o mercado literário nacional da crise em que se encontra. Felizmente não vivo de literatura; sendo de origem pobre e de periferia, galguei com muito esforço o espaço acadêmico e um lugar na área educacional como profissão. Escrever para mim é um sonho realizado e que pretendo levar adiante, sem pretensão de alterar algo no mercado literário... Este mercado é o que é e tem suas próprias leis para sobreviver. Penso que não são as questões de mercado que têm de mudar, mas os escritores independentes que precisam se organizar e mobilizar para trocar informações, conhecimentos; construírem algo juntos em prol de si mesmos, estejam trabalhando qualquer temática que lhes seja conveniente, porém com senso de ajuda mútua. Admiro as editoras independentes e grupos de escritores independentes que trabalham conjuntamente em benefício da literatura nacional e não do mercado. Certamente que, vivendo numa sociedade capitalista, a questão mercadológica e o tão esperado "sucesso" por algo que se produziu são esperados. Quem sabe, com essa perspectiva independente, não consigamos fazer com que mercado e qualidade literária andem juntos? Ainda não saberia responder a essa questão...

19. Se você pudesse dar um conselho para os seus amigos escritores por meio desta publicação, o que você diria a eles?

Vamos nos unir em coletivos e nos organizar para nossa autopromoção e divulgação do nosso trabalho! Não esperemos editoras fazerem isso por nós, arregacemos as mangas e façamos nós mesmos!

20. Obrigado pela oportunidade de conhecer um pouco mais de seu trabalho. Sucessos! 

Eu que agradeço, foi uma entrevista trabalhosa, mas incrível!

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