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Precisamos falar sobre o Kevin

Precisamos falar sobre o Kevin | Divulgação | Google Images

Precisamos falar sobre o Kevin é um romance escrito pela jornalista americana Lionel Shriver publicado em 2003 e adaptado para o cinema 2011. E quando você tem acesso tanto ao filme, quanto ao livro, você acaba tendo algumas coisas para poder falar a respeito. E essa publicação é basicamente isso.

Eva Katchadourian (Tilda Swinton) tenta retomar sua vida após uma tragédia familiar. Desprezada e oprimida pela vizinhança ela mora sozinha em uma casa precária e trabalha em uma agência de viagens. Até então uma bem sucedida escritora de livros turísticos, ela relembra sua vida desde o momento em que conheceu seu marido Franklin (John C. Reilly), um fotógrafo que trabalha com publicidade. Após anos desfrutando de viagens e prazeres do matrimônio Eva é trazida à realidade pela gravidez tardia, o casal abandona um loft no centro da cidade e se mudam para uma confortável casa no subúrbio para criar os filhos. Entretanto, como o nascimento do filho primogênito, Kevin, a vida de Eva muda drasticamente. Kevin, uma criança agressiva e cruel, nutre uma assustadora hostilidade pela sua mãe que se intensifica com o passar dos anos, destruindo a harmonia familiar e tornando Eva uma mulher infeliz, amargurada e tomada pelo terror.

Por mais fictício que seja o romance escrito pela jornalista, o tema é completamente atual e trás a tona uma verdade fruto de muito estudo: Psicopatia. Uma breve definição do que seria psicopatia:

Psicopatia é a designação atribuída para um indivíduo com um padrão comportamental e/ou traço de personalidade, caracterizada em parte por um comportamento antissocial, diminuição da capacidade de empatia/remorso e baixo controle comportamental ou, por outro, pela presença de uma atitude de dominância desmedida. Esse tipo de comportamento agonista é relacionado com a ocorrência de delinquência, crime, falta de remorso e dominância, mas também é associado com competência social e liderança. A psicopatia, descrita como um padrão de alta ocorrência de comportamentos violentos e manipulatórios, é frequentemente considerada uma expressão patológica da agressão instrumental, além da falta de remorso e de empatia. A psicopatia está diretamente relacionada com o Transtorno de Personalidade Antissocial, contudo estas condições não são sinônimos, uma vez que este é uma classificação médica e a psicopatia é uma classificação de um padrão comportamental científico. Ou seja, alguém pode ser classificado como sendo portador de Transtorno de Personalidade Antissocial sem atender aos critérios para ser classificado como psicopata.De maneira geral, nos homens, o transtorno tende a ser mais evidente antes dos 15 anos de idade, e nas mulheres pode passar despercebido por muito tempo, principalmente porque as mulheres psicopatas parecem ser mais discretas e menos impulsivas que os homens, e por se tratar de um transtorno de personalidade, o distúrbio tem eclosão evidente no final da adolescência ou começo da idade adulta, por volta dos 18 anos e geralmente acompanha por toda a vida.

Como podem observar na sinopse do filme com relação a definição de psicopatia: O psicopata tende a nascer com o "transtorno" antissocial e se manifesta nos homens antes dos quinze anos, e com nosso querido protagonista Kevin, não foi diferente. Após sofrer um desastre em sua vida e se mudar com o marido, Eva, acaba ficando grávida de um garoto, na qual o chamou de Kevin. Kevin era manipulador, cruel  e até mesmo sarcástico desde muito novo. Seu comportamento era agressivo, impulsivo e inibido. 

Kevin é o tipo de garoto que nasceu em um berço de ouro, porém, teve o infeliz destino de nascer com um transtorno incurável. Sempre pensando em si mesmo, e dando respostas mau-educadas em sua mãe (unicamente nela), Kevin começa a mostrar-se desprovido de qualquer sentimento de reciprocidade, caridade ou amabilidade. 


PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN | DIVULGAÇÃO | GOOGLE IMAGES

Vamos fazer uma breve análise entre os comportamentos de nosso protagonista e os diagnósticos da psicopatia:

1. Fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção;

Kevin não conseguia se relacionar com ninguém fora de sua casa, e mesmo assim, conseguia mostrar-se sem amor para com os próximos. Sua família sempre lhe deu toda atenção necessária para sua criação, porém, de nada valeu.

2. Impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro;

Kevin não se concentra em nada em todo o filme, a não ser em si mesmo. Um de seus planos para o futuro — e aparentemente o único — nos trás a tona a consumação do enredo escrito por Lionel Shriver.

3.Irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas; porém, paradoxalmente, têm fama e geralmente agem de forma bem comportada.

Aparentemente Kevin está sempre incomodado com alguma coisa, principalmente quando está próximo de sua irmã menor. Nem mesmo o acidente na qual a irmã sofreu, sentiu pena, dó ou compaixão. Em sua cabeça, planeja tudo de forma minuciosa nas entre linhas para conseguir sucesso no que deseja.

4.Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia;

Como dito anteriormente, Kevin não se importou com a segurança da irmã quando atravessou uma rua movimentada em busca de uma bola.

5.Ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa.

Em momento algum — nem mesmo quando a mãe questiona sobre — se sente mal com relação ao acidente da irmã, muito pelo contrário, ele ainda indaga: Por que eu me sentiria culpado?

6. Comportamento sexual exacerbado e inadequado, via de regra com vários parceiros, sem nenhuma ligação afetiva;

O nosso querido personagem principal já foi pego se masturbando de forma compulsiva pela mãe e não se intimidou, do contrário, persistiu no ato.

7. Desrespeito e desprezo por ambientes familiares;

Em momento algum se sente bem dentro e sua casa, e isso é visto no filme e sentido no livro. Kevin não gosta da mãe e em determinado momento a culpa por ser como ele é. 


PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN | DIVULGAÇÃO | GOOGLE IMAGES

Mesmo com todos estes diagnósticos, o comportamento de Kevin não se enquadra em um comportamento criminal, muito pelo contrário, o componente principal da psicopatia é o comportamento antissocial. Vejamos o que diz o doutor Hauck, Texeira e Dias:

"É importante ressaltar que a criminalidade não é um componente essencial da definição da psicopatia, mas sim o comportamento antissocial. O comportamento antissocial pode incluir crimes ou a infração das leis, mas não se resume a isto. Abrange comportamentos de exploração nas relações interpessoais que não chegam a ser considerados infrações penais. Por isso, as concepções modernas de psicopatia consideram fundamental a inclusão das características de personalidade que estão na base do comportamento antissocial de tipo psicopático. [...] O estudo da psicopatia na população geral é empiricamente justificado, uma vez que os traços que definem a psicopatia são, em tese, compartilhados por toda a população em maior ou menor grau. [...] Psicopatia é um construto psicológico complexo que envolve múltiplos comportamentos e disposições de personalidade. Esses múltiplos comportamentos e disposições, por sua vez, podem se manifestar em diversos contextos sociais específicos. Assim, é extremamente difícil conseguir itens que representem a totalidade de significados compreendidos por um construto como a psicopatia".


 Já a família de Kevin, sente-se dividida: A mãe faz de conta não saber que algo está errado com o filho, e fecha os olhos para os problemas, o pai acha que é fruto da imaginação de Eva, afinal, passa todo o tempo fora e não está presente em quase nenhum dos momentos de persuasão do filho sobre seu comportamento doentio. 

Podemos perceber o quanto Eva está desgostosa com relação a ideia de ter um filho ainda quando está gravida. Eva sente-se incomodada, afinal, todos os vizinhos a odeiam, ela é mau vista pela sociedade e sente que não é a hora de ter um filho. Após o nascimento do filho, Eva começa a perceber desde cedo comportamentos abusivos por parte da criança, e um mal-súbito de desapego familiar e ordens. Kevin é autônomo e não respeita a mãe, faz o que quer e sempre que pode está com pensamentos fixados em algo que todos desconhecem, porém, no fundo, no fundo, a mãe sabe que não são bons pensamentos.

Um garoto aparentemente com um futuro promissor, completamente bonito, inteligente e manipulador, decide planejar e executar um massacre em massa de pessoas próximas, dentre elas, seu pai e sua irmã de oito anos. Tudo indica que Kevin estava enciumado pela mãe, porém, essa hipótese é logo descartada quando levamos em consideração os sintomas de uma psicopatia. 


O filme aborda vários problemas muito importantes. Como entender a maldade humana?  Alguns nasceriam com uma dotação maior da pulsão de morte? Como o desejo dos pais vai modular e formatar as forças pulsionais?

Estarão os adultos – homens e mulheres – capacitados para exercerem as funções paterna e materna de forma natural e espontânea? Todos podem e devem almejar isso? São obrigados a isso?  Podem escolher ter ou não filhos? Qual a pressão interna ou externa para exercer tais funções? Que identificações possibilitam ou não essa configuração? 

No filme, essas questões ficam em aberto. Nele, a presença do pai é mais apagada, mas a própria Eva parece assumir grande parcela de culpa pela tragédia, atribuído-a, de alguma forma, a sua dificuldade em assumir a função materna, tão presa que estava a modelos mais próximos ao estereotipo masculino – o explorador, o viajante, o desbravador – alimentando com o filho um modelo competitivo e rivalizador, numa disputa para ver quem sairia vencedor da luta.

Note-se que há uma única menção à identificação de Eva com a figura materna. Sua mãe lhe telefona no dia de Natal, depois de acontecida a matança, e ela recusa o convite para passarem juntos.

REFERÊNCIAS:

TELLES. S. Precisamos falar sobre o Kevin. Disponível em: <http://www.polbr.med.br/ano14/psi0914.php> acesso em 19/02/2017 as 17:19

Wikipédia. Transtornos antissociais. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicopata> acesso em 19/02/2017 as 17:20

BARBOSA. A.B. Mentes Perigosas. 1. Ed. São Paulo: Fontanar. 2008

Precisamos falar sobre o Kevin. Lionel Shriver. Quetzal Editores. 2007. DVD. NTSC

Hauck Filho, N., Teixeira, M. A. P. & Dias. Psicopatia. Disponível em: <http://www.scielo.org.co/pdf/apl/v30n2/v30n2a08.pdf> Acesso em: 19/02/2017 as 17:26

Pérez, BeatrizRodríguez-Díaz, Francisco JavierHerrero, JuanFernández-Suárez, Asunción. O perfil do psicopata na constituição. Disponível em: <http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0718-48082016000200001&lang=pt> Acesso em 19/02/2017 as 17:28

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