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[RESENHA] Feliz Ano Velho – Marcelo Rubens Paiva

ISBN-13: 9788511050097
ISBN-10: 8511050094
Ano: 1982 / Páginas: 260
Idioma: português 
Editora: Brasiliense


Livro que marcou toda uma geração de leitores e tornou-se obra de referência na literatura brasileira contemporânea, o romance autobiográfico Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva ganha uma nova edição pela Objetiva, que vai relançar toda a obra de ficção do autor. Publicado originalmente em 1982, o livro é um relato verdadeiro do acidente que deixou Marcelo tetraplégico, a poucos dias do Natal de 1979. Jovem paulista de classe média alta, vida boa, muitas namoradas, estudante de Engenharia Agrícola na Unicamp, ele vê sua vida se transformar num pesadelo em questão de segundos. Durante um passeio com um grupo de amigos, Marcelo, de farra, resolve dar um mergulho no lago. Meio metro de profundidade. Uma vértebra quebrada. O corpo não responde. Começa ali, naquele mergulho, a história de Feliz Ano Velho.

"Marcelo, um garoto de vinte anos, muitas namoradas, estudante de engenharia agrícola na Unicamp, sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Começa ali, naquele mergulho, a história de Feliz ano velho, um relato verdadeiro do acidente que deixou o escritor Marcelo Rubens Piva tetraplégico, a poucos dias do Natal de 1979.’’

  Sempre tive certo receio de literatura contemporânea, contudo já algum tempo aspirava por algo novo e resolvi dar uma chance para o livro que encabeça essa resenha, enquanto caminhava inebriado pela Saraiva.

  Lançado em 1982, de autoria de Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho é um romance autobiográfico que tem como ponto de partida o acidente que deixou Marcelo tetraplégico, o livro mostra muito mais que a reabilitação de Marcelo, ao longo de um ano, no qual tinha como principal visão o teto do seu quarto de hospital.

  Portador de um enredo não-linear,  de uma linguagem fluida, muitas vezes informal e geralmente de períodos curtos, Feliz Ano Velho como já dito mostra muito mais que a recuperação de Marcelo Rubens Paiva, mostrando também seus dramas familiares, suas angústias, os amigos, as diversas fases da vida, que ora ou outra retornam a infância, os reflexos da Ditadura Militar na vida de sua família.

  Na primeira página do livro - após o prefácio -, na qual é descrito logo o acidente que o deixou paraplégico e nas próximas 50 primeiras páginas senti uma leve angústia, provavelmente por estar desconstruindo meu preconceito com literatura contemporânea, e porque nessas primeiras páginas são relatas de forma simples, prosaica e ao mesmo tempo violenta, as perdas de familiares e parentes e de animais de estimação que na vida de Rubens Rodas - não mais Rubens Paiva, devido a cadeira de rodas como o próprio autor em tom de ironia diz - não foram poucas para um jovem no auge dos 20 anos.

  Como todo livro, esse deixa transparecer o momento político e social do Brasil da década de 1970/1980, cénario esse marcado pela Ditadura Militar, a marca mais profunda que tal deixou na vida de Rubens foi o desaparecimento de seu pai o deputado de esquerda Rubens Paiva. Importante destacar que hoje, os direitos dos LGBT pauta amplamente discutida e defendida pelos partidos de esquerda (odeio essa classificação!), contrasta com o fato de que seu pai tinha medo que Marcelo por ser o único filho homem entre quatro irmãs, se tornasse afeminado.

“Nunca em toda minha vida, meu pai fizera tanta falta. Não sei ao certo o que é ter um pai, foi pouco o tempo que pude dizer ‘’papai’’. Mas de uma coisa tenho certeza: ele se orgulhava de mim. Ficou preocupado que seu filho, convivendo com quatro irmãs, acabasse se afeminando. Então, logo cedo, me pôs num colégio público, em São Paulo. Mais tarde, percebeu que não precisava, já que eu era um brigãozinhão e tinha uma voz hipergrossa. Quando mudamos pro Rio, me deixou estudar num colégio burguês, com os filhos dos seus amigos.’’

 Uma coisa que ora me incomodou durante a leitura, me dando um friozinho de leve foi as doses pequenas de machismo em determinados comentários, contudo tentei deixar isso um pouco de lado tendo em vista que o livro retrata um momento da vida do protagonista e autor que ocorreu no final da década de 1970.

  A forma simples com que trata de amor e das relações espirituais (termo que o próprio autor usa) são encantadoras; simples e encantadoras. A forma com a qual ele lida com o sexo, sem tabu, com os relacionamentos que são construídos dentro do livro, realmente apaixonam, em algumas partes o livro lembra uma mistura de conto erótico juntamente com temática social, de qualidade superior e com mais amor.

“Ela, de pernas, bem abertas, roçava toda a região da vagina no meu pinto e, quando encostava no clitóris, espremia-o bem apertado entre as coxas. Não tinha clima para um coito. Era um negócio importante que tinha com muita delicadeza, amor e respeito. A primeira vez de uma mulher é muito importante. Tem a relação dor e prazer. Só com um cara que ela gosta pacas e no qual tenha uma tremenda confiança poderá ficar à vontade. É um momento de forte libertação, um rompimento com os dogmas ensinados pela sociedade, desvinculação com a família, com a Igreja, que nós homens nem imaginamos como é duro. Também nem daria pra imaginar. De nós, homens, ao contrário das mulheres, sempre foi exigida uma potência sexual tínhamos que transar com prostitutas pra provar pros nossos coleguinhas que éramos machos. Nossos pais (o que não foi o meu caso) nos incentivavam a ter uma conversa de ‘’homem pra homem’’, na qual era oferecido um dinheirinho ou uma secretária.’’

“São as relações espirituais que mais gosto, e, se meu corpo reagir a essa paralisia, não quero perde-las por nada nesse mundo malucão.”

Mas, certamente, as amizades de Marcelo são o ponto chave do livro, durante todo o livro Marcelo não ficou só sempre tinha algum amigo, e quem não era acabava se tornando, como aconteceu  com o seu enfermeiro. As amigas que mais aparecem no livro são Big, Nana e Gorda, são verdadeiras ‘’mães’’ cuidam dele, lhe dão banho, o escutam, como diz o trocadinho uma vida sem amigos é uma vida vazia.

@Matheus Paiva

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