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[ENTREVISTA] Maya Falks — Autora de "Depois de Tudo"

Maya Falks | Foto por: Angela Nadin 
A nossa autora convidada de hoje nasceu escrevendo e descrevendo mundos. Maya Falks é a autora responsável pela escrita de "Depois de Tudo", publicado este ano pela nossa queridíssima editora parceira Alicanto. Nascida na serra gaúcha, Maya (35) abre as portas do seu coração e da sua vida e nos conta como nasceu o seu relacionamento com a escrita, e claro, dá detalhes e dicas importantes para quem quer iniciar uma boa escrita.

1. Como nasceu o seu relacionamento com a escrita?

Nasceu comigo. Sim, eu sei que soa estranho, mas a literatura está comigo desde que eu nasci. Quando eu era bebê, meu “brinquedo” favorito era o livro “O Batalhão das Letras”, de Mario Quintana. Minha mãe me colocava no berço com o livro e lá eu ficava por horas e mais horas balbuciando. Parece loucura, mas eu tenho a lembrança de criar histórias com as imagens de cada página, e certamente eram essas histórias que eu balbuciava quando eu ainda sequer sabia falar.

Aos 3 anos eu desenhava histórias em quadrinhos e ditava os diálogos pra minha mãe; foi uma época que o mais impressionante era como minhas histórias apresentavam coesão e coerência para uma criança tão pequena. Ali eu simplesmente estava dando meus primeiros passos para me tornar uma escritora. 

A partir da alfabetização, eu nunca mais saí de casa sem um caderno e uma caneta, que fosse um bloquinho, porque um dia sem produzir qualquer coisa escrita simplesmente não é um dia pra mim.

Em julho desse ano completo 35 anos, o que significam 32 dedicados à literatura. É um relacionamento longo, cheio de altos e baixos, pedidos de divórcio e ameaça de abandono, mas no fundo no fundo, Maya e literatura são almas gêmeas, são uma coisa só, não dá pra separar o que foi feito pra viver junto.

2. Qual foi o primeiro livro que você escreveu? E como surgiu a ideia de escrever um livro?

Chamava-se “Amor Eterno”. Eu sempre fui meio parada, fui uma criança extremamente calma, tranquila, ocupava um pequeno espaço com bonecos miniatura, construía uma cidade e ali poderia passar dias quietinha apenas criando histórias naquela cidade (e criava, algumas inclusive bastante complexas). O que aconteceu é que no verão pós alfabetização – algo em torno de 1990, fomos eu e minha família (eu então com 7 anos) para nossa casa em uma pequena praia do litoral norte gaúcho; como era tradição, fomos à praia vizinha, onde tinha um grande supermercado, fazer as compras de verão e sempre que íamos lá, eu e minha irmã ganhávamos algum brinquedinho do nosso pai. Naquele ano eu quis um caderno e um lápis.

Como eu não gostava muito de brincar na rua e com as outras crianças, o caderno virou meu brinquedo favorito e eu desenhei alguns quadrinhos ali, mas àquela altura eu não ditava mais pra minha mãe porque eu já escrevia e achei que o desenho era perda de tempo, eu queria ir direto pra história, usando o desenho apenas para ilustrar cada capítulo.

Acabou que o processo foi totalmente natural. Eu tinha uma história pra contar e um caderno na mão. Não creio que eu tenha efetivamente planejado escrever um livro àquela altura da vida, não creio que eu sequer tivesse noção que isso era algo que eu pudesse fazer; quando a gente é tão criança, parece que algumas coisas já vêm prontas, a gente não sabe que tem gente como a gente por trás delas, mas lembro que não muito depois perguntei aos meus pais se eu podia ser escritora quando crescesse.

O livro em questão não tem mais do que 15 folhas e nunca foi de fato acabado porque as férias acabaram antes, mas convenhamos que eu tinha apenas 7 anos, certo? 

Depois desse, ainda veio um livro de serial killer chamado “A Vingança” aos 11 e uma antologia poética aos 12; o livro de mistério tenho guardado em uma versão datilografada encadernada com capa de couro, e a antologia poética virou pó: queimei na churrasqueira quando a secretária de uma editora me disse que eu jamais publicaria um livro de poesias (ela errou!). Por volta dos 14 anos organizei outra antologia que minha mãe escondeu com medo de eu botar fogo também.

Esses três livros de infância/adolescência guardo com carinho como parte da minha história, mas jamais sairão da minha gaveta.


3. Quais suas principais inspirações literárias?

Humm, você quer dizer autores em quem me espelho ou o que me inspira a escrever? Responderei ambos!

Como meu início na literatura foi muito prematuro, eu não me espelhei necessariamente em ninguém para adquirir meu estilo próprio de escrita – tanto para prosa quanto para poesia. Mas claro que não posso negar que meu contato com outros autores foi fundamental na minha formação.

Na adolescência eu devorava os livros da Coleção Vagalume e era apaixonada pela coleção dos Karas, do Pedro Bandeira. Mas Pedro Bandeira teve um papel ainda mais próximo nessa formação; certa vez, por volta dos meus 12 ou 13 anos, criei uma história e escrevi uma carta a ele, a carta devia ter umas 10 folhas com toda a descrição da trama que eu criei, e eu mandei como sugestão para um novo livro. Dias depois do envio, recebi a resposta. Bandeira, em sua carta, dizia que minha ideia era muito boa, mas que era minha, e me incentivava a eu mesma escrevê-la. Não escrevi, sequer lembro que história o sugeri, mas adoraria conseguir contata-lo e dizer que, mesmo que eu não tenha escrito AQUELA história, me tornei escritora, como ele já previa em sua carta.

Não sei precisar se foi antes ou depois, mas nessa época comprei na feira do livro a obra “Descanse em Paz, Meu Amor”, uma obra do Bandeira completamente diferente do que eu estava acostumada a ler porque essa não era uma história de mistério, com investigações, era uma história de amor com sobrenatural e drama. Lembro que li o livro em um só fôlego ouvindo uma música chamada “Bitter Wine”, do Bon Jovi – que é extremamente triste (por sinal eu tinha por hábito, nesse meu começo de adolescência, ler ouvindo Bon Jovi). A mistura da música triste com uma história de drama mexeu comigo de forma tão definitiva que lembro disso com clareza, mesmo mais de 20 anos depois. 

Por volta dos 14 anos conheci o romantismo brasileiro e, com ele, Gonçalves Dias. Na real, conheci Gonçalves Dias pouco antes de conhecer o romantismo. Eu tinha por hábito espiar os livros didáticos tão logo minha mãe os comprava para o ano seguinte, e quando comecei a ter literatura na escola, devorava o livro antes das aulas. Foi assim que conheci um pequeno trecho da poesia “Ainda uma vez – Adeus”. Na época não existia internet, então eu só podia me alimentar do que tinha no livro, e não era muito. Canção do Exílio era obrigatória, e mais um trechinho de I-Juca Pirama. Foi amor instantâneo.

Só que eu troquei de escola antes de chegamos no Gonçalves Dias e, como os livros eram praticamente novos, conseguimos trocar vários deles pelos livros da escola nova. Nessa troca, se foi o livro de literatura e o novo não tinha absolutamente nada. Lembro que aquilo me doeu profundamente. Não estudamos praticamente nada dele. Quando tive, enfim, acesso à internet, minha primeira ação foi aprender a usar o Altavista (o google da época) para descobrir Gonçalves Dias. No dia seguinte eu seguia a uma gráfica com uma pilha de poesias impressas para encadernação, sendo esse o primeiro livro de Gonçalves Dias que tive na vida. Em 2006 uma editora lançou uma edição especial com capa de couro de alguns dos maiores nomes da literatura e tinha um com obras completas dele. Custava exatamente a metade do que eu ganhava de salário (não era o livro que era estupidamente caro, era eu que ganhava estupidamente pouco mesmo), mas comprei. Meu livro de cabeceira.

Atualmente tenho vários livros sobre ele, de teses de doutorado a livrinhos de literatura para adolescentes. Ano passado ganhei de um leitor uma obra publicada depois de sua morte, que era parte de seus estudos como antropólogo. A obra foi publicada em 1909 e é exatamente essa a edição que ganhei. Original, chega a escorrer uma lágrima quando toco nesse livro, ele é parte da história da nossa literatura.

Da literatura contemporânea, tenho gigante admiração por Leticia Wierzchowski. Vejo nossos estilos de narrativa de forma muito parecida; ela tem uma sensibilidade no uso das palavras que não apenas me encanta como me identifico, já que gosto de poetizar minhas narrativas. Além disso, Leticia é uma pessoa maravilhosa. Já dialogamos algumas vezes e ela sempre foi extremamente solícita, foi dela que veio o conselho que eu um dia arriscasse um edital público de fomento à cultura. Segui e venci.

Tenho ainda algumas histórias da presença de outros autores na minha vida e carreira, mas deixamos para uma próxima oportunidade.

Já, com relação à possibilidade de eu ter respondido até aqui uma pergunta que não foi feita, respondo sobre minhas fontes de inspiração para a escrita.

Bom, eu não sei. Sim, estou falando sério. A vida como um todo me inspira; já me vi sentada na calçada com um bloco na mão escrevendo uma poesia sobre uma florzinha bem pequena que vi num canteirinho do centro da cidade. Tudo pode ser inspiração, até as coisas mais inusitadas. Já criei histórias inteiras através de uma imagem distorcida que vi através do ônibus em movimento. 

Não sei se pelo meu hábito adolescente de ler ouvindo música, mas a música é seguidamente o grande motivo do nascimento de prosas e poesias. As letras são irrelevantes, a minha base musical é o que a música me despertou de sentimento, tanto que minhas duas narrativas longas finalizadas tiveram apenas uma música de trilha sonora, e uma completamente diferente da outra. Tenho um livro em andamento cuja ideia inteira eu construí na primeira audição de uma música.


4. O que você considera mais difícil durante a escrita de uma história?

O foco. Eu me disperso muito fácil, tenho vários contos inacabados (ou toscamente acabados) porque parei pra fazer outra coisa e não voltei ou voltei desconcentrada. Também tenho problemas com foco dentro da própria história; é comum eu estar em um determinado momento da narrativa e trazer um fato externo ao relatado no capítulo apenas para ilustrar, e o fato externo começar a ganhar forma a ponto de merecer uma narrativa só sua. Já precisei parar várias narrativas porque o pequeno parêntese no meio da história engoliu ela toda. Por exemplo: o personagem está vivendo uma situação que o relembra um trauma, então vou comentar que existiu esse trauma, mas esse trauma não vem sozinho, ele é toda uma história avulsa, e eu desvio da ação central para relatar o trauma que daria um conto inteiro. Quando vejo, estou trabalhando o trauma e a ação central ficou inacabada. Isso confunde o leitor, atrapalha a leitura, por isso que, quando perco o foco, recomeço do zero.

5. Quando decidiu se tornar escritor?

Não decidi. A vida escolheu por mim.

Creio que, com toda a minha trajetória, não havia outro caminho possível. A escrita é, desde meu nascimento, tão importante quanto o próprio oxigênio. 

Acho inclusive super engraçado quando vejo cursos de escrita criativa em que os instrutores defendem que o aprendiz de escritor crie uma rotina diária de escrita, que ele se obrigue a dedicar pelo menos uma hora do seu dia a escrever qualquer coisa. 

Acho estranho porque escrever não é apenas algo natural para o qual não preciso me disciplinar para realizar, é também algo NECESSÁRIO. Me pergunto se de fato existe algum escritor que trata a escrita como um trabalho árduo, algo que ele precisa se obrigar a fazer, se forçar, marcar um tempo no relógio porque seu ofício exige. 

Sou redatora publicitária e estudante de jornalismo; por causa de ambos, passo literalmente o dia todo escrevendo, seja textos comerciais ou jornalísticos e aí sim eu preciso de uma disciplina porque preciso atender aos prazos e escrever textos sob medida para as necessidades dos clientes, e isso nem sempre é algo que eu goste de escrever ou escreva por amor.

Mas não na literatura. A literatura escapa pelos meus poros, é um processo totalmente normal que sobrevive quase que como um organismo independente. Sejam crônicas para o facebook, sejam frases para minha página, eu estou o tempo todo escrevendo, ao natural, porque é isso que me faz feliz.

Então não, eu não decidi ser escritora, eu apenas segui o curso natural da vida.


6. Qual de seus personagens você mais gosta?

Essa pergunta é cruel! Mas ok, vou responder Leandra, do Histórias de Minha Morte, não porque a julgo melhor que a Júlia, protagonista do Depois de Tudo, ou do que qualquer outro personagem, mas o Histórias é em primeira pessoa, é a Leandra narrando, então durante todo o tempo que eu passei escrevendo, eu me tornei ela. Como o leitor também entra na mente dela, ela acaba sendo a personagem mais complexa que já escrevi, porque você tem acesso não apenas à história dela mas aos sentimentos e sensações. E como ela enlouquece ao longo do livro, ela te leva junto em cada surto. 

Maya Falks | Foto por: Angela Nadin 

7. Como você sente quando recebe um comentário positivo acerca de sua obra?

Sensação de dever cumprido mesmo. Mas isso na real é recente, há não muito tempo eu simplesmente não acreditava nos elogios. 

Claro que existe um histórico por trás. Eu sou uma pessoa super insegura porque sou canhota de uma geração que começava a aceitar canhotos (antigamente amarravam a mão esquerda dos canhotos para obriga-los a usar a direita), então ok, eu podia usar a esquerda mas não haviam pessoas preparadas para me ensinar o basicão, tipo, usar uma tesoura ou abrir uma lata. 

Pra se ter uma ideia, procurei ainda criança uma escola de música para tocar violão e precisei migrar pro teclado porque o professor se dizia incapaz de ensinar uma canhota. O resultado disso tudo é que eu tinha dificuldades absurdas com atividades de motricidade fina – uso de tesouras, réguas, colar reto, etc – e pra piorar eu tinha problemas de equilíbrio por causa das constantes otites desde o nascimento e caía com frequência, o que fez com que minhas professoras da pré-escola alertassem meus pais que eu poderia ter problemas neurológicos (foi um jeito bonitinho delas de dizer pros meus pais que eu podia ser meio retardada).

Nesses tempos, a minha capacidade criativa e minha habilidade de comunicação eram completamente ignorados ante minha incapacidade de virar estrelinha ou caminhar sobre um muro sem cair. Igualmente eu era preterida em atividades artísticas porque eu não cortava na linha pontilhada e era uma criança gordinha cujo único papel de destaque que consegui nas oficinas de teatro foi o de Papai Noel. Resumindo: eu era um peso morto na escola.

Tive que lutar muito para ser vista como uma pessoa criativa com potencial, e fui esbarrando em mil barreiras no caminho; desde uma professora de redação que publicava livros e me via como concorrência (eu vendia redação pra metade da turma, todo mundo tirava de 9 a 10 e eu raramente passava de 7) até o rótulo de a louca da turma porque escrevia poesia na aula de química. 

Não que eu não tenha tido pessoas no caminho que me incentivaram, mas perto das que me puxavam pra trás, elas acabavam parecendo nem existir. 

No meio desse turbilhão das notas baixas em redação por implicância da professora, do julgamento sobre minha capacidade intelectual, dos rótulos de louca e das tantas pessoas que tinham nojo de mim por ser gorda e por isso preferiam ignorar minha existência e minha obra, receber meu primeiro elogio foi um tremendo choque.

Parecia estranho pra mim, depois de tantos anos sendo rejeitada e desconsiderada, descobrir que alguém leu meu trabalho e efetivamente gostou dele. Na real esse estranhamento acontece até hoje: é COMUM eu receber elogios e achar que estão elogiando por pura diplomacia. 

Mas me emociona profundamente quando me dizem que meu texto é transformador. Acredito na arte como ferramenta de revolução social; saber que uma pessoa se sentiu acolhida, abraçada ou representada por um texto meu, que ele mudou um ponto de vista ou deu uma luz em seu caminho é realmente uma realização.

Eu não escrevo por escrever, eu escrevo porque essa é a marca que eu vou deixar no mundo, e eu quero que seja a melhor possível.


8. Pretende escrever novos livros? Tem algum projeto em mente chegando?

Pretendo, enquanto eu tiver viva, estarei produzindo. 
Pra ser muito honesta, eu tenho muitas histórias... “em andamento”. Coloco as aspas porque a maioria está parada, inclusive é comum que eu escreva dois ou três capítulos apenas para não perder a ideia porque a vida nem sempre permite que se continue. Imagine, trabalho em turno integral e estudo à noite, faço freelas, alimento páginas do face e participo de concursos. No meio de tudo isso ainda curto dormir de vez em quando! Então infelizmente a narrativa longa acaba prejudicada.

Tenho ideias na geladeira desde 2002 (cheguei a escrever quase 200 páginas de duas dessas ideias – 2002 e 2008 – mas deletei porque não gostei do andamento delas) que pretendo regatar. Acho que na real o que me atrapalha nesse processo de escolha de um projeto para efetivamente tocar em frente e concluir é que eu estou constantemente tendo ideias, elas nunca param. Algumas viram contos, outras não passam por um filtro mínimo de qualidade e são descartadas, outras ganham 2 ou 3 capítulos e vão para a pastinha de andamentos. 

Nesse momento as coisas estão realmente corridas, mas assim que eu conseguir um tempo novamente, já tem um projeto que se escolheu para ser continuado – e sim, são os projetos que se escolhem, ficam martelando na minha cabeça até que eu os “liberte”.


9. Qual gênero literário você mais se identifica?

A literatura é um poço de encantamento sem fundo pra mim. Não sou muito fã de fantasia, mas admiro demais quem consegue criar boas histórias precisando criar um universo inteiro sem bases concretas (realidade, por exemplo) para se apoiar. Também não gosto de romances melosos “de banca de revista” (eram os favoritos de vovó), mas é bem questão de gosto pessoal mesmo.

Tirando esses e alguma coisa de distopia (descobri que não detesto depois de amar Jogos Vorazes), gosto de tudo. Conto, crônica, poesia, sejam de mistério, romance (não meloso), ação, drama, terror (não muito fantasioso)... e também não fecho as portas para os gêneros que não curto muito, vai que algum me surpreende?

Na real, acho que só não gosto de livro que não me encanta ou me subestima como leitora, então me identifico com tudo, gostaria de conseguir escrever todos os gêneros. Pegando a minha obra como referência, creio que eu poderia me rotular mais como uma escritora dramática porque gosto de explorar muito as dores humanas, a complexidade da mente, o lado social, mas não quero ficar restrita a esse rótulo, já produzi coisas boas de humor e terror.



Maya Falks | Foto por: Angela Nadin 

10. O que você diria para as pessoas que estão conhecendo tanto você, quanto a sua escrita agora?

“Bem-vinda, bem-vindo, ao fluxo das minhas veias”. Essa frase está na introdução do meu livro de poesias “Versos e Outras Insanidades”. Eu escrevo com a alma, sou extremamente transparente tanto na literatura quanto na minha vida... real?, e isso me torna uma pessoa extramente exposta, o que por um lado é terrível porque o que mais tem no mundo é gente disposta a usar suas vulnerabilidades para te machucar, mas ao mesmo tempo aqui não há baile de máscaras, meus personagens estão restritos à literatura eu sou tão bobinha e sentimental quanto pareço!

Então cheguem mais! Meu pequeno universo é meio insano, mas é gostosinho! 


11. O que as pessoas devem esperar da sua escrita?

Verdade. Podem esperar verdade, uma literatura em estado bruto saída diretamente da alma.

Comecei cedo demais, como já dito antes, e, pós escola, fui direto para a faculdade de publicidade; nunca tive uma única aula teórica de produção de texto. Vejo que muitos colegas fizeram faculdade de letras ou pelo menos cursos diversos de criação literária, então todo esse acervo técnico e teórico que a maioria deles tem, eu não tenho.

O que eu tenho a oferecer são mais de 30 anos de prática, uma mente em constante ebulição e um coração aberto. O resultado disso é que a minha literatura é visceral e instintiva – sem fórmulas, sem técnicas, sem regras.

Se é melhor ou pior do que quem tem esse acervo, só o leitor pode dizer, mas garanto que de minha parte eu nunca paro de tentar.


12. Qual passagem do seu livro te marcou mais? Existe um trecho que você goste mais que os outros?

Depois de tudo está em sua segunda versão
e será publicado este ano através da Editora
Alicanto.
Bom, são 3 livros, falarei de cada um.

Depois de Tudo: foi meu primeiro livro já como adulta, o primeiro que eu publiquei. Escrevi ele aos 24 anos, em uma fase peculiar da minha vida; quando enfim consegui que uma editora recebesse meu original, ele estava envelhecido e não representava mais quem eu tinha me tornado. Então, antes de mandar pra editora, eu o reli e percebi que mudanças sutis seriam o bastante para arredondar a história e torná-la minha outra vez. Nesse quesito, tem um diálogo mais próximo do fim do livro, entre a protagonista Júlia e a esposa de seu amante, Toni, que reflete com perfeição esse amadurecimento tanto meu, como mulher e como escritora, quanto da personagem.

Histórias de Minha Morte: o livro inteiro é recheado de momentos impactantes, porque ele conta a história de uma mulher de 25 anos, negra de periferia que encontra seu próprio corpo caído no chão da cozinha. Toda a história gira em torno da descoberta de significados, de compreensão da própria vida, então existem vários momentos-chave nele. Mas o final... ah, o final... chorei escrevendo e choro de novo toda vez que releio.

Versos e Outras Insanidades: poesias e prosas poéticas. Tenho lá minhas poesias favoritas, mas quero destacar o último texto do livro, incluído como um bônus. O texto em questão é a locução de um minimetragem que desenvolvi no final de 2016 e está disponível no youtube chamado (A)Pressa; além de ser um texto impactante, o filme só foi possível porque eu envolvi pessoas do país inteiro – todo ele foi editado com vídeos mandados de todas as partes do país e até de fora. Me emociona ser autora de um projeto que uniu tanta gente.


13. Como foi a recepção do público com relação ao seu primeiro livro?

Aí depende o sentido também. O livro foi lançado por uma editora que se colocava em um molde quase tradicional; ou seja, não era autopublicação, todo custo de publicação e envio para o lançamento foi da editora, mas todo e qualquer serviço que levasse de fato o livro ao leitor devia ser pago pelo autor e eu não sabia disso. O resultado foi que meu livro – fruto de uma escritora pobre – saiu da gaveta da minha casa para a gaveta da editora.

Meu primeiro grande choque foi o preço de capa absurdo, quem compraria um livro de 268 páginas de uma autora completamente desconhecida por R$ 49,90? Mas piora: só tinha à venda no site da editora e no da Livraria Cultura, ou seja, mesmo quando eu consegui convencer a editora a baixar pra R$ 39,90, ainda tinha o frete. Tá pouco ruim? Piora mais: era sob demanda, então o livro não existia ainda quando o leitor efetuava uma compra pra lá de salgada.

O resultado disso foi que comecei a receber várias reclamações de gente que tinha comprado o livro há 2, 3 meses e não recebia. Com receio dessas situações, no segundo ano de contrato eu simplesmente parei de divulgar o livro.

Sem divulgação, sem distribuição, caro e inacessível, o livro vendeu pouco, algo em torno de 120 exemplares. As coisas não correram como eu fantasiei a vida inteira, eu me senti ainda não publicada, ainda aspirante.

O que me salvou nesse turbilhão de frustrações foi o segundo sentido que atribuo à pergunta: o público amou o livro. Muitas pessoas me procuraram para elogia-lo, houve até quem reclamasse que foi dormir tarde porque não conseguia parar de ler. E só por essas pessoas é que o Depois de Tudo renasceu, porque foi uma leitora minha que indicou o livro a uma editora, que o avaliou e aprovou, e agora meu primogênito voltará ao mercado mais bonito do que nunca!


14. O que te inspira a continuar escrevendo?

A fé na arte.

Acredito na arte como um organismo vivo, capaz de mudar as pessoas. É um ciclo: a arte muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo. Não tenho aquelas ilusões ingênuas de que verei um dia uma sociedade sem ódio e sem guerra, mas se eu conseguir gerar empatia e transmitir amor em 10 pessoas, serão 10 pessoas a menos propagando ódio e discórdia.

Cada pessoa conta, cada pessoa importa. Os grãos de areia parecem insignificantes isolados, mas se retirarmos cada grão de areia de uma praia crendo que não fará falta, eventualmente ficaremos sem praias. Eu acredito na propagação das boas ideias, no efeito borboleta, o que estou plantando hoje com a minha literatura pode salvar uma vida no futuro. 

Eu não faço ideia dos efeitos a longo prazo que posso alcançar com a minha arte, mas acredito de todo o coração que vale a pena tentar.



Maya Falks | Foto por: Angela Nadin 

15. O que você diria para alguém que está iniciando a escrita do seu primeiro livro?

Não tenha pressa para publicar. Conheço, por exemplo, um escritor que publicou seu livro tão logo o terminou e o resultado é que o segundo encalhou. O primeiro livro é um grande cartão de visitas – claro que não significa que o autor não poderá dar a volta por cima e reconquistar o público, mas é um trabalho árduo e certamente doloroso – é preciso ter responsabilidade com a sua obra e com o seu público se houver no autor o interesse em de fato seguir uma carreira literária.

Também recomendo cautela com a autopublicação. Sou de uma geração em que essa possibilidade só existia pra quem era muito rico, então eram poucos que de fato usavam. Hoje popularizou, uma pessoa pode publicar a seu critério no wattpad ou na Amazon, e na Amazon ainda pode mandar imprimir e receber em casa um livro digno de editora. Ao mesmo tempo que as plataformas de autopublicação se tornaram uma alternativa viável ao mercado editorial que seleciona autores a dedo (e com critérios muitas vezes obscuros), elas também podem ser uma ferramenta de autoenganação. 

Explico: o autor crê que sua obra é boa, tem uma boa recepção do público e se acomoda. Mas o público do autor evolui, aguça o senso crítico conforme aumenta seu acervo de leituras, se o autor não evoluir com ele, não interessa se seu primeiro livro teve milhões de visualizações, o segundo pode frear e o terceiro não vingar. 

Não que esse risco não ocorra com autores contratados por editoras, mas o conselho editorial está aí pra isso, pra apontar melhorias e fazer o autor evoluir. E igualmente não estou dizendo que o autor do wattpad ou da Amazon não é bom, pelo contrário, tem muita gente incrível nessas plataformas que vai sendo pouco a pouco “pescada” pelas editoras, apenas o que eu recomendo ao autor de primeira viagem que preferir uma autopublicação à luta árdua por um contrato é que não se acomode. Não se iluda com elogios; encantamento passa, é preciso que se invente novas formas de encantar todo dia. Não se satisfaça. Busque sempre a evolução.

Digo tudo isso porque eu sou uma pessoa muito ansiosa e, na ausência de plataformas acessíveis e sem verba pra bancar minha autopublicação, eu não tive escolha além de correr pras editoras tradicionais com o meu Depois de tudo, e eu passei 8 anos engolindo frustração atrás de frustração. O que eu fiz? Eu baixei a cabeça e trabalhei. Revisitei cada personagem, cada subtrama, aparei arestas, e fui melhorando ao longo desses anos todos. A colheita veio com a aprovação na primeira editora que efetivamente aceitou receber o original.

Hoje estou com contrato com três editoras: uma via edital público de fomento à cultura e duas a convite das mesmas. Se eu tivesse um wattpad em 2007, quando escrevi o Depois de Tudo, não creio que isso estaria acontecendo hoje porque não sei se eu teria conseguido me forçar a evoluir, não sei se eu teria transformado o Depois de Tudo na obra que ele é hoje.

As críticas negativas doem mas são importantes, são fundamentais. Ninguém nasce pronto, ninguém está isento do erro. Então meu conselho final ao autor de primeira viagem é: ouça a crítica negativa e reflita. Mas receba ela de coração aberto. Depois que o incômodo passar, pode vir um crescimento bem legal pra você.



Maya Falks | Foto por: Angela Nadin 

16.Na sua opinião: Qual o pior erro que um autor pode cometer durante a escrita do seu primeiro livro?

Creio que não só no primeiro livro, mas em qualquer livro: não revisar. Não estou falando de correção ortográfica, estou falando de conteúdo mesmo. Quando a gente começa um livro, por melhor que seja nossa ideia do andamento e do desfecho da história, a gente tem um ritmo bem de quem tá começando, a gente também está se familiarizando com personagens, tramas e cenários. É NORMAL que a narrativa vá ganhando todo um ritmo novo, é normal que novas ideias surjam e personagens tenham sua personalidade alterada.

E o público nota essas guinadas se o começo do livro não for ajustado. Recentemente li um livro de uma autora que eu curti o primeiro e pra mim ficou claro que ela estourou, conseguiu um contrato bom com uma editora grande e teve prazo pra entregar o novo original, não dando tempo de retomar o começo. A gente vê e pega mal.

As vezes é pouca coisa. No Histórias eu não mudei mais do que dois ou três parágrafos no começo pra alinhar ele com o restante do livro, já o Depois de Tudo eu praticamente reescrevi o começo. Não existem fórmulas prontas, exatamente por isso não arrisque – releia seu livro.


17. onde podemos encontrar seus livros para compra? Qual você indica que nossos leitores conheçam primeiro?

Por enquanto em lugar nenhum, serão os três lançados em abril. Ainda não sei precisar onde estarão, mas divulgarei muito na minha página Escritora Maya Falks (curte eu?).

Sobre a sequência... bom... eles são COMPLETAMENTE diferentes um do outro, tipo, como se fossem escritos por pessoas diferentes! Eu indico que leiam os três!


18: Qual a sua opinião sobre a literatura nacional nos dias de hoje? Acha que é bem divulgada pelos blogs literários e editoras?

A literatura nacional sempre foi grande, a gente que não conhecia direito porque as grandes editoras nacionais sempre investiram mais em autores estrangeiros ou nacionais já consagrados por outras atividades (músicos, jornalistas, etc). Me aperta o coração quando as pessoas da minha cidade, por exemplo, comentam que estamos com uma nova geração de escritores que estourou de uns 5 anos pra cá e que antes tivemos um grande hiato apenas com alguns nomes já consagrados, enquanto eu produzo literatura há 32 anos e me faltou oportunidade de mostrar.

Nesse ponto entra o mérito do wattpad e da Amazon – a gente critica mas reconhece os méritos – ao mesmo tempo que eles abrem portas para autores sem nenhum interesse em crescer e aprimorar seu trabalho, também são a oportunidade de muita gente maravilhosa que seria ou foi ignorada pelas editoras. 

O que acontece é que o brasileiro que procura literatura gratuita nessas plataformas opta por autores nacionais por causa da língua e, à medida que vai se deparando com um material de qualidade, vai perdendo o preconceito contra a literatura nacional. As editoras e os blogueiros estão enxergando isso.

Nesse quesito, as plataformas de autopublicação acabaram se tornando uma grande ferramenta para fazer o autor nacional ser visto pelo público e pelas editoras. A própria editora por onde reedito o Depois de Tudo está materializando livros que foram sucesso do wattpad.

Eu acredito de coração no futuro da literatura nacional e vejo essa evolução por mim: 32 anos de literatura, foram 8 lutando para publicar o Depois de Tudo e, subitamente, publico três livros sendo dois a convite de editoras. Estou sendo vista, somos milhares sendo finalmente vistos. Isso é realmente incrível!


19. Se você pudesse dar um conselho para os seus amigos escritores por meio desta publicação, o que você diria a eles?

Acho que antes de mais nada, precisamos ser humildes. Não somos melhores que ninguém por escrevermos. Mas além disso, precisamos estar cada vez mais perto das pessoas, nos despirmos de nossos preconceitos e abraçarmos as diferenças. Temos uma arma poderosíssima nas mãos – a literatura – temos que usar com responsabilidade.

Outra coisa que acho legal é a gente se ajudar. Existe hoje todo um esforço do poder público para esmagar o artista; vejo inclusive gente que usufrui das artes esbravejando que o artista é vagabundo e outras atrocidades do nível. A gente precisa se unir pra se fortalecer. Na minha cidade, é comum eventos literários organizados por escritores que acolhem outros escritores e assim todo mundo se divulga. Há espaço para todos, e quanto mais a gente se ajuda, mais a gente cresce juntos.


20. Obrigado pela oportunidade de conhecer um pouco mais de seu trabalho. Sucessos! 

Eu que agradeço! Adoro falar de literatura, adoro contar minha jornada. Inclusive creio que me empolguei um tanto... muito obrigada!

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