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Gatos ou sobre o egoísmo


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Desejo a vida, mas nunca desejei a espera. É preciso ter certa destreza para aguardar o momento certo para contemplar a coisa. Ela nunca se mostrará verdadeira a quem lhe busca num primeiro momento. No instante do prenúncio ela será como o que virá da nova estação. Estamos aqui sentados esperando que o verão se vá para que chegue o outono, e que no inverno sintamos frio. Este calor nos faz estar em contato com algo que nos impressiona ao mesmo tempo que nos causa horror. É o inferno. O nosso inferno particular.

Todas as manhãs acordo e tenho aquela sensação de uma vida que pulsa e se debate dentro da magnificência do meu corpo, em busca de algo mais ameno e tépido que este calor, que já nos primeiros momentos da manhã me arrebata e me leva para a experiência mais drástica da minha vida. No entanto, sempre existe aquela culpa olhando de espreita num canto do quarto, gritando para todos os lados que ninguém se permite o sofrimento por que quer, mas todos, inevitavelmente todos tem culpa em seu próprio sofrimento.

Não estou aqui para escrever sobre isso. No momento em que tomei o papel em minhas mãos, quis escrever sobre gatos. A minha intenção era fazer uma comparação entre os gatos e os homens, a sua domesticação que é apenas possível pela metade, pois apesar de domesticados, os gatos ainda mantém em si algo de selvagem. É como o homem que deixa uma fera adormecida dentro do peito, mas ao menor impulso da causa, desperta a fera e sua selvageria vem à tona.

Eu tive gatos em minha vida, gatos que não foram meus. Gatos que me tiveram, pois eles sabiam como me ter. Quando era hora do almoço eles me seguiam até a cozinha, e miavam. Os gatos são extremamente dramáticos. Quando precisavam de carinho eles chegavam, mansos, sorrateiros, e esfregavam sua cabeça em minhas pernas, ou em qualquer parte do meu corpo que estivesse próxima. Os gatos são sabeis e egoísta. Ah, mas quando eles estavam fazendo algo, não, eu não ousava me aproximar deles, nem um carinho, nenhuma palavra. Se ousasse, eles me encaravam com aqueles olhos que refletem mil e uma charadas diferentes em cada segundo e pareciam me levar ao inferno. Isso! Cheguei ao ponto. Aquele olhar. Aquele olhar felino era como este calor, me arrebatava num momento de agonia premeditada, e eu era lançado a margem de mim mesmo tentando entender por que tanto os queria se eles na verdade me desprezavam e só gostavam da minha companhia quando precisavam de mim. Eu era o seu objeto.

É como hoje. Hoje eu acordei com a sensação de pertencer a alguém que não sei o nome (talvez saiba, mas não quero falar). Mas esse pertencimento me dói no calcanhar. A minha liberdade é posta a prova. Sinto como se estivesse querendo aprisionar a minha humanidade a algo ou alguém que não faria questão da minha animalidade. E é isso que sou, um animal, tal qual os gatos, em partes domesticável, porém selvagem. É esse o mistério da coisa, essa coisa que não se releva pra gente assim logo de primeira, e que espera o tempo certo, o tempo que a vida lhe impôs para nos tocar o ombro e nos revelar as pontes que nos levam até o caminho do esplendor. 

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