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[RESENHA#103] O último abraço — Vitor Hugo Brandalise


ISBN-13: 9788501108272
ISBN-10: 8501108278
Ano: 2017 / Páginas: 140
Idioma: português 
Editora: Record
Avaliação: 10/10 — Favorito !

Em um ensolarado domingo de setembro de 2014, Nelson Irineu Golla, 74 anos, atendendo à súplica da esposa, Neusa, 72, abraça-se a ela com uma bomba de fabricação caseira junto ao peito e acende o pavio. Embora pareça um romance, O último abraço é uma grande reportagem, cujo leitmotiv é o desejo dos protagonistas de morrer. Ela, depois de dois AVCs, definha numa clínica para idosos; ele, inválido de um braço, não suporta mais vê-la implorando com os olhos para que a matem. O caso, que ficara conhecido na Justiça como “um Romeu e Julieta da terceira idade”, é aqui reconstituído por Vitor Hugo Brandalise nos mínimos detalhes.

Ninguém está preparado pra nada disso. Pode pensar o quanto quiser que, na hora, ninguém está preparado — Página 119

O que você faria se ficasse impedido de realizar tarefas simples, ou se tudo ao seu redor contribuísse para que sua idade seja vista como um estorvo na vida de outrem? E se você pudesse dar um fim em tudo, você faria? São perguntas como esta, que a narrativa/reportagem de Vitor Hugo procura responder e enfatizar.

Em O Ultimo Abraço, iremos conhecer a vida de Neuza Maria Golla (72) e Nelson Irineu Golla (74) — pais de Nilson, Nilma e Nelson Jr — residentes na Torquato Tasso, Vila Prudente (SP) que enfrentam os problemas acometidos pela chegada da idade. 

Tendo como palco de uma tragédia a Vila Prudente (SP), Vitor Hugo Brandalise mostra-nos um dos casos mais curiosos acerca do amor, seu livro "O último abraço" narra a vida de Irineu e Neusa Golla e seu desejo incessante pela morte. Contando com uma narrativa simples e objetiva, porém, sem perder o foco e a credibilidade de Jornalista, Vitor nos apresenta um sequencial de fatos e lembranças dolorosos. O caso ficou conhecido como "Romeu e Julieta da terceira idade".

Vitor Hugo Brandalise apresenta-nos uma história verídica acerca da eutanásia no Brasil, trazendo-nos a tona um dos poucos casos conhecidos. De uma forma objetiva e simples, o autor narra a sucessão dos fatos quase que de forma poética, apresentando-nos a vida dos Golla desde o início da construção dos sonhos, da família e dos desejos, até a consumação de tudo.

Neusa era uma mulher extremamente forte, dotada de grandes talentos para o comércio, casa e meio social. Dona Neusa era uma mulher ativa no mercado de venda de bugigangas, excelente cozinheira e uma comunicadora nata, o que claro, rendia altos papos com amigos, vizinhos e familiares, já Irineu Golla mostrava-se indiferente com a realização da mulher e acreditava cegamente em duas visões, a primeira de que o homem tem que ser soberano em sua casa, e de alguma forma, maquiava para que isso parecesse verdade, mesmo que a maioria do dinheiro que entrasse na casa fosse de dona Neusa. Um marido prendado que casou-se em 1967 com Neusa e viu-se casado por mais de cinquenta anos depois com a mesma mulher, ele realmente á amava.

Com uma visão limitada acerca da idade, Irineu começara a ver os problemas da velhice aparecer quando teve todo seu lado direito imobilizado aos setenta e quatro anos. Acreditava cegamente que velho não tinha espaço na sociedade e que a única serventia apresentado à sociedade, era sua morte.

Velho, quando chega aos 50 anos, tem que ir para o inferno. Não serve para mais nada. Se aposenta e fica por ai pegando dinheiro do governo.

Com o tempo acontece com a família uma tragédia que ninguém esperava, dona Neusa sofre um AVC e fica internada por um bom tempo, tendo como resultado a paralisia do lado direito do corpo por completo, porém, após alguns anos sofre outro AVC que a deixaria mais debilitada que o primeiro, levando-a á atrofiar músculos, mão, pescoço e língua, tenho recebido a cogitação de estar com ELA (esclerose lateral amiotrófica). Irineu que dizia-se muito religioso pergunta para si e para os outros onde estava Deus nestas horas e o que mais de ruim poderia acontecer.

A religião já não ajudava — pelo contrário, estava decepcionado a ponto de questionar a própria existência de Deus — Página 25

Após dois AVC'S dona Neusa ficou impedida de receber cuidados em casa e foi transferida para uma clínica de cuidados chamada "Novo Lar", localizada no parque São Lucas, alguns poucos quilômetros de de onde morara com o marido. O que obviamente não agrada à Nelson e confirmava cada vez mais sua hipótese sobre a vida sobre "velhos não terem valor", inclusive pelo seu estado atual e o empecilho em poder ajudar a mulher, visto que, seu braço também encontra-se  paralisado completamente.

Leia e entrevista com o autor Vitor Hugo Brandalise

Quem sofre um infarte, ganha na loteria (pág 32) — pensava Irineu algumas poucas vezes analisando o sofrimento da mulher que tanto amou, que agora, encontrava-se acamada e sem recursos para reivindicar seus direitos, já que fora sempre uma mulher independente e por um bom tempo evitou a ajuda de terceiros, ela queria melhorar de alguma forma, porém, nada do que foi feito mostrou uma melhora significativa no quadro clínico da paciente,muito pelo contrário, a cada dia que se passava, encontrava-se mais debilitada.

Até que então, veio a grande ideia a cabeça de Nelson: Eutanásia. Afinal, isso iria acabar com o sofrimento de todos.

Você pode até ser contra a eutanásia, mas basta ir a uma casa de repouso, um asilo, e vai mudar de opinião. A não ser que vá só uma vez. Mas se for todos os dias... Se for todos os dias, você muda de opinião. — Página 116

Narrado sempre em primeira pessoa sob a visão do autor, podemos notar um cuidado especial para com a dissertação dos fatos e do desenvolver de toda a trama e sucessão dos acontecimentos, sem se esquecer por nenhum momento de nenhuma das pessoas envolvidas com seus comentários e lembranças.

COMENTÁRIOS

Este é um dos poucos livros pelos quais me interessei cegamente este ano. A escrita do jornalista Vitor Hugo é impecável em todos os sentidos, o que o caracteriza não somente como um grande jornalista, mas também, como um escritor nato de proezas ativas. A história das tragédias acometidas à família Golla são de fato, tenebrosas, porém, a decisão do autor em narrar uma história desta magnitude tornou o livro de alguma forma especial, podendo mudar sua percepção acerca da vida, dos momentos e da idade. 

o livro é repleto de pensamentos filosóficos feitos por Nelson e pela sua mania de pensar positivo, o que claro, deixa o livro ainda mais chamativo, visto que, Nelson enfrentara o pior momento de sua vida, o estado quase que vegetativo de sua mulher e seu sofrimento constante, pedindo sempre para poder ir para casa, ou simplesmente, morrer.

Quero morrer, apague esta luz e me deixe — Página 32

O registro jornalístico produzido dentro do enredo deste livro é entristecedor. A história é emocionante à cada linha pela qual passamos nossos olhos. Uma visão esclarecedora sobre o amor, sobre a entrega e sobretudo, o entendimento. Entender que o momento de partir irá chegar e que é necessário aceita-lo, principalmente quando quem está partindo é uma parte crucial de quem você é, ou se tornou.

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