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Um olhar sobre ‘A Redoma de Vidro’, de Sylvia Plath

Um olhar sobre "A redoma de Vidro" | Texto por Tati  Lopatiuk

Direto dos anos 60, um retrato cru e poético da depressão clínica


A Redoma de Vidro foi lançado em 1963 e é o único romance da escritora e poetisa norte-americana Sylvia Plath. O livro conta a história da jovem Esther Greenwood, uma moça de dezoito anos que vai dos subúrbios de Boston para uma prestigiosa universidade para moças quando ganha uma bolsa de estudos e estágio em Nova York. Com essa chance, o mundo parecia estar se abrindo para a garota, enquanto sua rotina se divide entre o trabalho na redação de uma revista feminina e uma intensa vida social. Tudo parece correr bem, mas esse panorama promissor acaba sendo o gatilho de uma crise emocional que levaria Esther do glamour da Madison Avenue para a clinica psiquiátrica.
O livro é de uma delicadeza sublime. Narrado em primeira pessoa, ele nos mostra como a crise de Esther se dá sem nenhum motivo em particular. Não é de um dia para o outro, é extremamente sutil o modo como ela vai aos poucos sendo consumida pela depressão. Por meio da escrita doce e melancólica de Sylvia Plath, vamos nos perdendo junto com Esther. Em alguns pontos fica tudo um pouco confuso, não se sabe se o que está acontecendo é algo factual ou um delírio da personagem. Somos conduzidos por Esther e caminhamos ao seu lado enquanto ela se vê sendo engolida pela vida, sem defesas e sem escapatórias.
A escrita, eu já disse, é maravilhosa. Sylvia (ou Esther) faz uso de analogias tocantes e cheias de poesia, de modo que a experiência da leitura é quase como a de ler um poema um pouco mais extenso do que o usual.
Esther nos é apresentada como uma menina extremamente inteligente e esperta, até cínica, mas também frágil e sentimental. Tudo o que lhe acontece, por mais cotidiano que seja, lhe deixa marcas profundas sobre as quais ela se perde em pensamentos tão profundos quanto.
Parecia haver fumaça saindo dos meus nervos, como aquela que saia das churrasqueiras e da estrada. Toda a paisagem — praia, encosta, mar e pedras — tremia diante dos meus olhos como a cortina de um palco.


São as inúmeras possibilidades que confundem Esther e acabam por minar a sua sanidade. Em uma das passagens mais icônicas do livro, ela compara seu futuro com uma figueira, onde sua vida tomava diversas direções, como os galhos da árvore.
Na ponta de cada galho havia um figo maduro − um maravilhoso futuro. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos; outro, ser uma poeta famosa; outro, uma professora ilustre e mais outro era ser Éxis, a incrível editora; outro, conhecer a Europa, África e América do Sul e ainda outro era Constantin, Sócrates, Átila e um monte de outros namorados com nomes estranhos e profissões esdrúxulas; e um figo era ser campeã olímpica de equipe de remo e além desses tinha tantos outros figos que eu não conseguia nem ver.
Imaginei que estava sentada embaixo da figueira, morrendo de fome por não decidir que figo escolher. Queria todos, mas, escolhendo um, não podia pegar os outros e, enquanto ficava sentada ali, incapaz de resolver, os figos começaram a amadurecer, apodrecer e cair aos meus pés.
A pressão da mãe e da sociedade para que ela “tome um rumo” e se case são angustiantes. Suas dúvidas quanto ao futuro a atormentam e, somadas ao seu medo de não conseguir ser boa em nada, fazem com que ela se veja refém de um bloqueio criativo e não consiga escrever mais. Sendo a escrita o principal foco de sua vida, o bloqueio acaba por deixar Esther absolutamente mortificada e paralisada. Do pavor ela vai à apatia. Não come mais, não toma banho, não dorme. E é aí que acaba sendo internada em uma clinica psiquiátrica. E aí vem os eletrochoques e as tentativas de suicídio.


É desconcertante imaginar uma pessoa sendo internada e levada a tomar choques no cérebro apenas por estar triste ou não saber o que fazer da vida. No entanto, à época em que o livro foi escrito, isso era relativamente comum. A depressão e o transtorno bipolar ainda eram vistos tão somente como um mal menor e bobo, do qual a pessoa poderia se livrar se tivesse força de vontade e quisesse de verdade. Em uma das passagens do livro, Esther leva o primeiro eletrochoque e diz não querer nunca mais voltar à clinica. “Eu sabia que minha bebê não era como eles. Eu sabia que você iria resolver voltar a ficar bem”, é o que a mãe da menina responde.
Ainda mais desconcertante é descobrir que o livro é repleto de referências autobiográficas. A narrativa é inspirada nos acontecimentos do verão de 1952, quando Sylvia Plath tentou o suicídio e foi internada em uma clínica psiquiátrica, onde foi submetida à uma série de eletrochoques, assim como Esther. Após esse período, Sylvia conseguiu reconstruir sua vida, na medida do possível, chegando a ser uma autora publicada, além de ter casado e ter dois filhos.
Com 30 anos de vida, família e carreira sólida, era de se pensar que Sylvia havia finalmente escolhido os figos de sua figueira. No entanto, cerca de um mês após a primeira publicação de A Redoma de Vidro, na manhã de 11 de fevereiro de 1963, Plath vedou completamente o quarto dos filhos com toalhas molhadas e roupas, deixando comida perto de suas camas, tendo ainda o cuidado de abrir as janelas do quarto para entrar ar. Em seguida, tomou uma grande quantidade de remédios, deitou a cabeça sobre uma toalha no interior do forno com o gás ligado e morreu em poucos instantes. Na manhã seguinte, seu corpo foi encontrado por uma enfermeira que ela havia contratado.
Sylvia Plath foi uma escritora incrível, um dos grandes nomes da poesia confessional. Com seu único e quase póstumo romance, ela abre o coração sobre suas feridas e lança luz sob uma doença que pode atingir qualquer um e para a qual todos devemos ter cuidado e respeito. Um retrato da depressão clínica e de como ela age silenciosamente, assim é A Redoma de Vidro. Poético, denso, bonito e extremamente triste. Com certeza, a leitura dele vai despertar algo em você. Pode ser um sinal de alerta, pode ser a compaixão por quem já passou ou passa por isso.
Seja como for, é um despertar necessário.

A edição mais recente de A Redoma de Vidro é da Editora Biblioteca Azul e se encontra indisponível na maioria das livrarias. Na Amazonvocê encontra o ebook por menos de vinte reais ou de graça pelo Kindle Unlimited.
Todas as ilustrações deste artigo são de Julia Bereciartu e integram um projeto pessoal da artista inspirado pelo livro.
Texto por Tati Lopatiuk. Confira a publicação original clicando aqui.

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