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[ENTREVISTA] Vitor Hugo Brandalise, autor de "O último Abraço"

Vitor Hugo Brandalise | Facebook | Divulgação
A curiosidade de um jornalista que sucedeu um livro incrível. Vitor Hugo Brandalise, apresenta-nos uma história real de um homem que premeditou o assassinato da mulher em um ato de amor. A notícia datada do dia 30/09/2014, foi publicada pela Folha de São Paulo, o curioso caso acordou São Paulo para o acontecimento que era expresso em poucas palavras e deixava muitas perguntas ao ar, até o momento em que um leitor — Brandalise — tomasse a decisão de ir à fundo e detalhar o acontecimento, e claro, transforma-lo em um livro.

Nelson Irineu Golla e Neusa Maria Golla planejaram em conjunto a ação. O pedido feito por Neusa após encontrar-se em uma cama debilitada após sofrer dois AVC'S e dois anos de internação, foi atendido pelo marido, desde que, morresse juntamente com a mulher, utilizando uma bomba de fabricação caseira. Os detalhes desta história que parece de cinema você confere em "O ultimo Abraço" (Editora Record, 140 páginas).

Em um ensolarado domingo de setembro de 2014, Nelson Irineu Golla, 74 anos, atendendo à súplica da esposa, Neusa, 72, abraça-se a ela com uma bomba de fabricação caseira junto ao peito e acende o pavio. Embora pareça um romance, O último abraço é uma grande reportagem, cujo leitmotiv é o desejo dos protagonistas de morrer.


1. "O último abraço" foi inspirado em uma reportagem verídica acerca da vida de Neusa e Nelson Golla. De onde surgiu a ideia de mergulhar "a fundo" no acontecimento e transforma-lo em um livro?


Creio que foram as muitas perguntas ainda sem resposta. A notícia saiu em um canto de página no dia 30 de setembro de 2014 e informava, em poucos parágrafos, que um senhor de idade havia explodido uma bomba em um asilo, com o intuito de que ele e a esposa tivessem morrido, mas que apenas ela se fora. Como ele continuaria a vida, depois de um ato desesperado como esse? O que o levara a tomar essa decisão? Que tormentos esse casal estaria vivendo, para chegar a esse ponto? A decisão havia sido mesmo tomada conjuntamente? Os filhos conseguiriam aceitar o que houve como um ato de amor? Tentar compreender os extremos a que o desespero (e mesmo o amor) podem levar uma pessoa teve um papel muito importante para decidir escrever este livro.


2. A grande chamada para o livro da-se pelo subtítulo "Uma história real sobre a eutanásia no Brasil", se levarmos em consideração a concepção da palavra, ela encaixa-se perfeitamente no enredo e nos fatos descritos. Como foi o processo de escolha do título e do subtítulo? Ao escrever a obra, você já tinha uma noção de como a chamaria, ou optou em escolher após a finalização?


Depois de algumas boas sugestões da editora e outras não tão boas do autor, o jornalista Sérgio Augusto, que escreveu a orelha do livro, apareceu com a sugestão de "O Último Abraço". Na minha opinião, é um ótimo título, pois também é literal: de fato houve um último abraço, e isso é narrado em detalhes no livro. Quanto ao subtítulo, outra opção muito acertada, a meu ver, foi sugestão da editora. De minha parte, gostei muito do conjunto título-subtítulo.


3. Como foi o primeiro contato com os Golla ao saber de seu interesse no acontecimento  e principalmente no fato de querer transforma-lo em um livro?


A colaboração dos Golla foi fundamental para a escrita do livro. O primeiro contato foi por meio de uma mensagem em uma rede social. Depois de algumas conversas, creio que eles perceberam que minha intenção era fazer um trabalho sério, e uma relação de muita confiança foi criada. Embora seja muito difícil para eles falar do que aconteceu, creio que sempre sentiram que a história de seus pais poderia ser útil a muitas famílias que estão vivendo situações semelhantes. E, de fato, tenho recebido muitos retornos de pessoas que se identificam com os dilemas e situações que eles viveram e que eu pude relatar. Os Golla foram muito generosos ao confiar a mim a história de sua família.

Nelson e Neusa Golla | Jornal O globo | Divulgação
4. Houve alguma conversa, momento ou sensação diferente por parte da família durante os relatos que não tenha sido relatado no livro? Teve algum ponto que o marcou mais como jornalista?

Uma fala de Nelson, em uma de nossas primeiras conversas, me marcou muito: “Quando passa a viver com alguém, você se transforma completamente, fica enraizado, e já não tem como viver sem essa pessoa”. Enraizado, um junto do outro, uma só raiz unindo duas pessoas a uma porção de terra. Creio que um aspecto essencial nesta história é a dificuldade de acompanhar a decaída de alguém com quem se conviveu durante praticamente uma vida inteira.


5. Podemos notar no enredo que Nelson apesar de insatisfeito com a rotina cheia que era conduzida pela mulher, começou a sentir falta dos dias turbulentos quando a mulher acabou ficando acamada, por diversas vezes ele pensava de si mesmo  e da própria velhice que a morte era a melhor solução. Durante o processo de escrita e documentação de fatos para elaboração do enredo, ele disse algo sobre como se sentia atualmente com relação a sua idade e a ausência de Neusa?


Ele sente muita falta de Neusa, mas não se arrepende do que fez: tem a certeza de que fez o que fez para minimizar o sofrimento de ambos, e de toda a família. Em relação à idade, Nelson sempre teve dificuldades de encarar esse momento da vida. Quando começou a notar em si próprio e na mulher problemas de saúde ligados à velhice, se revoltou. Hoje, depois de tudo, ele faz terapia de grupo em um parque perto da casa dele e creio que consegue aceitar melhor o que é envelhecer.


"O ultimo abraço", publicado pela editora Record.
Foto por: Presente do ler
6. Em seu livro, podemos notar que você trabalhou severamente em cima de alguns tópicos paralelos que deram uma certa ênfase em todo enredo, tais como as críticas ao sistema de saúde (que enfatizaram os pensamentos de Nelson por diversos momentos acerca da precariedade dos serviços públicos para com o público), a vida de sacoleira de Neusa durante um determinado período de tempo, e claro, o machismo exacerbado de Nelson. Como foi o processo de escolha destes tópicos? Houve muito estudo para desenvolver a escrita destes acontecimentos em determinado período?


Pesquisei muito principalmente os temas relacionados às questões da velhice. A solidão que se sente quando a família passa a se reunir menos, a vida em uma casa de repouso, o suicídio na terceira idade (em média, três idosos se matam por dia no Brasil hoje), as questões da eutanásia e dos cuidados paliativos, entre outros tópicos. Tive de ler muito para entender principalmente essas questões. Em relação ao machismo e às alternativas econômicas da família em tempos de crise, como quando Neusa se tornou sacoleira, foi mais um trabalho de escuta e de não desprezar mesmo as mínimas informações que demonstrassem como era a relação desse casal. É um livro que não romantiza a relação de Nelson e Neusa, e que tenta relatar a vida como ela é, com suas pequenas alegrias, misérias, surpresas e resoluções -- que podem parecer minúsculas, mas dizem muito sobre quem somos, especialmente se observadas como um conjunto.

Leia a resenha de "O ultimo Abraço"


7. Como jornalista, qual foi sua experiência ao lidar com um assunto tão delicado e ouvir os relatos sob as diferentes óticas dos membros da família?


Foi necessária muita organização. Principalmente para que pudesse aproveitar ao máximo o que me disseram as dezenas de pessoas que entrevistei. Creio que não houve conflitos cruciais entre os depoimentos. Eles eram, basicamente, complementares. O desafio foi mesmo ouvir de novo e de novo, com atenção, para não desprezar detalhes que trariam mais riqueza à história.


8. A eutanásia ainda é um tabu, afinal, o Brasil é um país rigorosamente regido pela religião, o que acaba influenciando de forma significativa na vida, relações sociais, políticas ou qualquer outro setor da sociedade. A visão de Nelson sobre a eutanásia era compactuada com a de seus parentes e filhos?


Creio que, como muitas pessoas no Brasil, eles nunca haviam refletido muito sobre o assunto. Eutanásia ainda é um tabu em nosso país. Como disse um dos médicos com quem falei para escrever este livro, é a sociedade que leva as questões a serem discutidas nos conselhos de medicina – que definem o que médicos podem e não podem fazer. Na minha opinião, a história de Nelson e Neusa, e aquilo que ele genuinamente entendeu como eutanásia, é uma demonstração de que chegou a hora de o Brasil discutir abertamente as delicadas questões que envolvem o fim da vida e a autonomia de um indivíduo em relação a isso.

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