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[RESENHA#110] Corpos Marcados — Carlos Fernandes

Titulo: Corpos Marcados
Autor: Carlos Fernandes
Editora: Scortecci Editora
Ano: 2017 — 1º Ed / Páginas: 384 
Código: 978-85-366-5001-2
Avaliação: 8.5/10

Composta por sonetos, quadras, trovas e outras formas poéticas,a obra centra-se nos temas de violência e de morte, utilizando-se de fatos da vida cotidiana em geral e da história do Brasil em particular. Além do público literário, dirige-se a professores de Literatura e de História.

A agressividade instintiva do homem como notamos no balbuciar, rodear e permear do homem sobre a terra. Toda a singularidade e linguagem expressa neste livro gira em torno da agressividade corporal, que transita entre pensamentos de impotência e sentimentos de impulso e embate mortal. Tudo inicia-se desde a capa — a capa é uma pintura que retrata uma luta histórica dentro da mitologia grega entre Antaeus e Heracles — Antaeus um homem invencível nos combates, toda sua força era proveniente do seu contato com a terra, durante um bom tempo seu legado foi reconhecido por todos, tornando-se invencível para alguns, até que um dia Antaeus entrou em um combate contra Heracles. Heracles usou sua astucia e sabedoria para identificar que jamais iria vencer Antaeus jogando-o ao chão ou prendendo-o, em vez disso, optou em ergue-lo ao alto e esmaga-lo até sua morte visceral em um abraço de urso. A competição entre Heracles e Antaeus era um assunto favorecido nas esculturas da Grécia Antiga. 

Corpos Marcados é uma coletânea de quadras, trovas, sonetos e poemas que ilustram a agressividade corporal, a morte e sobretudo, a violência do homem. Um livro poético, instintivo e repleto de palavras e significados alternativos, leva-nos a refletir acerca de fatos da vida cotidiana e histórica. O público literário é apenas uma parte da qual esta obra se consagra, ela também é dirigida à professores de Literatura, História, e por que não, filosofia. 

Composto sempre por narrativas viscerais, objetivas e centralizadas no propósito de mostrar-nos a face da violência e do embate corpo-a-corpo entre dois seres, Carlos Fernandes apresenta-nos uma escrita memorável, combinando-a com uma série de esculturas que transitam e encontram-se com sua escrita filosófica, poética e sábia, que atrevem-se de forma inusitada e inovadora apresentar e contestar a violência histórica e contemporânea do cotidiano em sua totalidade, enfatizando sempre, o Brasil como cenário principal. Permeando entre a cultura do homem sertanejo, do homem mulato, latino, trabalhador, do homem que planta, cultiva e agride. Agride a vida, o corpo, o combate, o encontro e o desencontro entre uma trova, uma quadra e um soneto e outro, sempre muito bem elaborados e construídos, mostrando-nos toda sua sabedoria ao usar termos e exemplos ricos e vivos que vão de encontro ao nosso pensar e ao nosso penar.

Nas imundices de cruzes, oráculos. Vidas e mortes, são cifras e cálculos, ou fontes banais de macabros abismos. — Espetáculo do crime, pág 301
Em uma narrativa histórica e complexa, iremos entender de forma clara e objetiva os desejos do autor expressados de forma clara e redigida de forma transparente os acontecimentos acerca da violência e consciência histórica para com nosso relacionamento de forma consciente — ou inconsciente — acerca da violência cotidiana que nos cerca a todo instante. Brasil, mundo e Grécia. Três exemplos que são demonstrados de forma poética e clara, onde cada linha é a morte de uma pessoa, o penar de outra e o profanar de algumas.

Sem importar-se com o efeito das palavras, o autor apresenta-nos reflexões severas de forma concreta, visceral e viva sobre a vida e o embate e encontro dos corpos e morte da alma e do corpo, onde a cova pode ou não ser compartilhada com nossos sentimento de consciência acerca do que podemos ou não presenciar, afinal, a morte é apenas uma pequena parte que constitui um todo de um matadouro de gente que ocorre e discorre por todo momento, a todo instante.

COMENTÁRIOS PESSOAIS

A escrita do autor é cativante, porém, é complexa e demasiadamente carregada de sentimentos puros e viscerais, onde não é qualquer pessoa que compreenderá. Um convite tentador à uma viagem à história, ao centro do nosso intimo e ao nosso desejo do saber e aprofundar, conhecer e estudar a violência histórica do Brasil, do seu povo e as analogias presentes nos sonetos que permeiam entre presente e passado, entre o agora do cotidiano e as diversas figuras de linguagens que usam metáforas e personagens da Grécia para ilustrar de forma mais objetiva á agressão como um todo.


A parte mais viva e cativante dos livros — que foi incrivelmente muito bem elaborado e organizado — são os sonetos. Tudo está impecável e trata do mesmo tópico, do mesmo culto ao corpo que envolve a violência e a consciência do agora e a consciência histórica acerca do corpo-a-corpo, os sonetos mostram-nos de forma mais limpa e transparente todo o tópico e enredo enraizado em todas as outras páginas, durante minha leitura pude me encontrar mais objetivamente nas linhas expressas, escritas e elaboradas dentro de uma narrativa mais vivaz e rica acerca do tema proposto pelo autor.
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