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[RESENHA#115] Insolitudes — Tiago Feijó

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Não sem tremor, ele colhe da pilha de papéis uma lauda branca e íntegra, que faz mergulhar no rolo da máquina de escrever. Daqui a alguns minutos, nesta íntegra e branca lauda, Ernesto Nestor depositará aflicação que o consome há anos, arrancando-a de dentro dele como se fosse o seu próprio coração vivo e pulsante. Antes, porém, mais um minuto de pausada reflexão, como que recapitulando os pontos essenciais de seu tema, como que firmando as fronteiras de sua estória e de seu personagem, como que procurando o fio inicial de sua trama, que é ao mesmo tempo o seu começo e o seu fim. Após este minuto, o tec-tec da máquina principia, tímido e desafinado, até se transformar num tec-tec desabalado e harmônico.



Aquilo o que não torna-se habitual, torna-se raro, fora dos parâmetros e incomum.  Tiago Feijó apresenta-nos uma escrita visceral acerca das insolitudes que rondam nossas vidas e permeiam nossos sonhos mais fantásticos. Vencedor do Prêmio Ideal do Clube de Literatura (2014), Feijó apresenta-nos sua capacidade prolífica para com a escrita. Contabilizando um total de 9 contos, somos levados ao encontro dos mistérios presentes no consciente do autor, onde poderemos — e iremos — experimentar o melhor da literatura fantástica e seus mistérios. 

O livro possui duas divisões básicas, a primeira delas é Insolitudes literárias e Outras Insolitudes. A seguir iremos apresentar um resumo básico de todos os contos que compõe a obra. 


Nada é tão insólito como o lugar comum — Artur Conan Doyle

A INSÓLITA MORTE DE ERNESTO NESTOR

Este é talvez, o melhor conto de todo o livro e também o primeiro. A insólita morte de Ernesto Nestor caracteriza em todos os sentidos o título do livro. Também encontraremos neste conto o resumo que  está presente na capa traseira da obra. Ernesto Nestor como todo homem de saudade sã e minguados inimigos está prestes à morrer, porém, ele desconhece completamente este fato. A escrita presente neste conto é a mais improvável possível, afinal, o autor consegue conduzir a história de uma forma tão magistral que o anúncio antecipado do personagem principal do conto em momento algum altera a adrenalina presente durante a leitura. 

Tiago Feijó possuí um dom indomável de escrita, onde consegue conduzir com facilidade uma história que para muitos, jamais poderia ter sido imaginada, conduzida ou até mesmo criada.

JOSÉS


— Nem o poderia, José, posto que não fui enterrado, mas cremado, e minhas cinzas jazem ao pé de uma oliveira, árvore que por uma geração alimentou o meu povo. — Página 35

José José Fernandes é o protagonista central deste conto. Intitulado carinhosamente como J.J, ele terá a experiência mais fantástica de sua vida, terá a oportunidade de rever um dos maiores escritores de todos os tempos, JOSÉ SARAMARGO. O conto narra os encontros de J.J com Saramargo em súbitos noturnos, encontros do acaso em uma escrita leve, precisa, direta e concreta.

Josés é um dos contos que faz-nos viajar por entre a linhas e imaginar cada diálogo inteligente presente nas indagações nela propostas.  Encontraremos nela também, uma emoção há muito tempo adormecida: A emoção e saudade de sentir-se vivo e completo, nem que seja por um instante.

 OUTRAS INSOLITUDES

1.1 — CONTO RETIRADO DE UM POEMA

Inspirado em um poema de Manuel Bandeira, "Conto retirado de um poema", narra a morte de João Gostoso, de forma repentina e sem ninguém perceber. Em poucas linhas, Feijó consegue apresentar-nos um mundo de imaginação além das cinco linhas propostas no poema, fazendo-nos viajar, imaginar e ir além das indagações, obtendo respostas em um mundo alternativo onde uma morte quase não anunciada, ter tido tão pouco anúncio, a não ser, um simples canto de um jornal.

2.1 — O OLHO

O olho é um dos contos mais interessantes da obra, se não, o mais inteligente. Aqui, iremos conhecer SENHOR F, que trabalha fatidicamente em um escritório de uma repartição juntamente com o SENHOR F.D.P e a senhora P.M. Certo dia, senhor F nota algo de diferente em seu quarto, um olho estava fixado à um dos tijolos da parede de seu quarto, como poderia aquilo? Intrigado com o caso e decidido à ir além e pesquisar mais sobre, senhor F começa a observar o olho cada dia mais, passando mais e mais tempo em seu quarto, até que ele tem um súbito de ideia e decidi leva-lo ao escritório onde trabalhara, dai para frente, é só história e um ensinamento nas entrelinhas.

3.1 — O CASO DO CARTÃO


— Uma amei verdadeiramente, como amam os loucos, com demência e devoção. — página 59

O caso da tristeza absoluta, a insólita mensagem de que tudo na vida é incerto. Neste conto, iremos conhecer o caso de alguém que se apaixonou perdidamente por uma mulher que brincou com seus sentimentos. Ela agora, estava com outro cara em outro patamar, desfrutando de outros ares. Alguém que sentia-se sozinho e completou-se na alegria de outrem, sentia-se agora desolado pelo abandono repentino e sem motivos, aliás, tinha motivos, só que tão banais, que devemos nos questionar se o que está em julgo é o amor ou o que o dinheiro pode comprar.

Um caso que pode acontecer com qualquer um — e sem sombra de dúvida — alguém já deve ter sido atingido por este mal irremediável que é o abandono por motivos fúteis.

O caso cartão pode ser o caso do nosso amanhã, ou talvez, seja o presente de alguém que conhecemos bem, ou não.

4.1 — AQUI, DENTRO DE MIM

Onde guardam-se as mágoas ganhas nesta vida? Elas se vão, ou permanecem em nós até os confins? Tereza é casada com Tuca e possui um filho chamado Eduardo (31) casado com Manuela. Certo dia, dona Tereza recebe uma ligação em seu trabalho lhe notificando a pior noticia que nenhuma mãe jamais gostaria de ouvir: Seu filho falecera durante uma caminhada na praia com a namorada.

O conto narra a forma como Tereza perdera seu filho, seus sentimentos, dores e  a forma como o sentimento de amor pelo filho Eduardo, manteve-se inteiramente vivo dentro dos pais. Um conto para ler com lenços de papel ao alcance.

5.1 — UMA NOITE NA VIDA DO SENHOR LAMEQUE


— Você sabe que eu jamais esquecerei daquele dia, não sabe, Lameque? — Página 81

Algumas pessoas sofrem com suas consciências, outras sofrem com a consciência e lembranças de outras pessoas, este era o caso de Lameque. Mais de cinquenta anos se passaram, e sua mãe ainda se lembra como se fosse ontem do ocorrido, parece que ela faz questão de lembra-lo do acontecimento.

Em uma narrativa mais que envolvente, somos transportados para dentro da pele de Lameque e enfrentaremos o seu dia-a-dia com sua mãe, que por algum motivo, lembra-o à cada segundo de sua vida.

6.1 — HÁ UMA GOTA DE ORVALHO EM CADA CRIANÇA


(...) Quase me senti verdadeiramente suja diante daquela criança que esperava uma explicação sobre a sujeira de nossas peles — Página 82
Um conto para ler para seus filhos. Iremos encontrar uma situação bastante comum no Brasil: Preconceito. Aqui, mãe e filha são indagadas por uma criança do porque de suas peles negras serem "sujas", e isso leva ambas à ficarem sem reação, mas compreenderem que a pergunta veio de uma criança.

Após um tempo, a filha vê-se em um mercado próximo à uma criança branca de cabelos dourados e olhos azuis que à faz sentir-se novamente cheia de orgulho e de vida. Ela tinha algo que as outras crianças não tinham, ela era especial de uma forma, e é este algo especial dentro desta criança que eu vos convido à conhecer.

Não seria justo eu contar o desenrolar de todo o conto, então, deixarei todos na expectativa, só tenham ciência de que tudo termina de uma forma esplendorosa.

7.1 — A MORTE E A PEQUENA ANA 

Ana é uma garotinha que está enfrentando pela primeira vez a tragédia do luto em sua vida. Ainda nova, Ana vê-se obrigada á enfrentar os problemas de perder alguém tão próximo, seu irmão Antônio, chamado carinhosamente de Tonho pela família.

Ana entende tudo o que está acontecendo, porém, sente-se meio aflita pela situação em que se encontra e pelo fato dos adultos conversarem quase que em "códigos" pensando que ela não irá entender, porém, ela compreende bem, a única coisa que ela não compreende é o que levou seu irmão ao óbito. O motivo ela sabe, só não compreende.


COMENTÁRIOS PESSOAIS

Em meu primeiro contato com Tiago Feijó, pude decifrar que dentro de suas palavras havia algo de misterioso, tão misterioso quanto sua escrita. Em Insolitudes iremos encontrar situações incomuns, misteriosas, não habituais e repletas de dor, afinal, o significado central daquilo o que é insólito é "Não habitual", ou seja, não é algo que vemos todos os dias ou presenciamos em nosso cotidiano. Como a morte de um ente querido próximo, a morte por meio da escrita entre outros casos misteriosos que acometem nossos dias.

O livro é indicado para todo e qualquer leitor exigente em todos os aspectos. A obra foi muito bem elaborada e minuciosamente escrita. Tiago Feijó consegue escrever de forma leve, despretensiosa e com isso, acaba levando-nos por seus caminhos desconhecidos, onde teremos o prazer de conhecer e desfrutar das histórias fantásticas presentes em sua mente.

Pessoas comuns gostam do que se torna popular. Eu gosto mais do insólito. — Andrezza Filizzola
Uma escrita para quem ama uma boa história, repleta de suspense, mistério e complexidade.
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