Header Ads

O amor é um filme de ficção científica

Imagem por: Mega Stock | Texto por Gabrielle Martins

                Por toda a adolescência ela leu romances adocicados. Aqueles tão clichês de dar raiva. Mas ela era menina, ela não entendia nada sobre amor de verdade. Lágrimas de emoção escorriam pelo rosto e molhavam a página. Releituras das partes mais emocionantes. Pensamentos e devaneios ao fim da obra.
                Os livros carregavam-na para um mundo paralelo. Todo menino que ela gostava na escola poderia se tornar aquele homem do livro que amava ardentemente aquela mulher a qual sempre foi rejeitada pela vida e sempre sofreu.
                No íntimo ela achava que sempre padeceu como essas protagonistas de best-sellers e sabia que um dia um homem igual ao desses livros viria para resgatá-la daquela vida tão árdua.
                E sim, vários apareceram e por vários ela se apaixonou. Tinha aqueles que nem ao menos sabiam de sua existência. Tinha os rapazes que apareciam na televisão. Tinha aqueles que cantavam e eram americanos. Tinha aqueles que a rejeitaram, que riram, que a embebedaram. Tinha aqueles que fugiam, que marcavam encontros e não iam, que usavam de sua inocência por uma noite. Mas então quem sabe um milagre igual ao livro aconteceria? Quem sabe um dia encontraria um belo príncipe pela rua e ele se apaixonasse no primeiro instante não resistindo ao seu charme e seu jeitinho de menina pedindo ajuda com o olhar?
                Ela beijou alguns. Ela acreditou em outros. Ela foi rejeitada por grande parte.
                Os livros mudaram com o tempo. Tantas experiências ruins e totalmente contrárias fizeram ela se sentir mal e se perguntar o que tinha de tão errado consigo mesma. Achava que era diferente de todas as mulheres e que era a mais feia delas, mais fácil e mais boba. Então os livros adultos e clássicos entraram em cena. Tornaram-se realistas e saíram da linha dos best-sellers. Tornaram-se livros de terror, mistério e ficção cientifica. Bruxaria.
                Ia aprendendo da pior forma que a vida não era como um best-seller adocicado. Não começava com sofrimento e terminava em alegria. Era mais fácil começar e terminar no infortúnio. A realidade batia na cara dela, a derrubava no chão, ela chorava alto e acordava todo mundo em sua casa.
                Acreditou um dia que o amor poderia ser arrebatador e destruir casamentos, revirar a cabeça. Mas esqueceu que quando alguém não gosta de você, quase nunca ela muda de ideia. Nem com amarração brava. Esqueceu que homens mentem só para levar mulheres para a cama. Não, não. Sexo não é algo mágico para eles. É animal, é poder.
                E ela que se entregou várias vezes nas mãos de homens que mais pareciam vermes, insensíveis, rudes e mentirosos.
                Por mais que passasse por situações repetidas todas as vezes, sempre se deixava levar por um abraço ou uma palavra dita de maneira carinhosa por um rapaz. Ela gostava do proibido. Ela gostava de se aventurar em romances proibidos, era emocionante e gerava adrenalina na vida.
                Algumas vezes se aventurou com meninas, mas meninas quebram seu coração de forma muito mais dolorosa. Meninas são tão ruins quanto garotos. Mas dava para entendê-las. Como não virar uma pessoa ruim vivendo em meio a esses rapazes que não sabem o que é amor. E se eles amam demais, chegam a perder a cabeça. Se tornam um perigo. Como um animal.
                Eles te seguem, te vigiam pela janela do seu quarto, querem te bater, te matar. O amor deles é animal, é poder. Não é dançar em um castelo, olhar as estrelas e trocar sorrisos gentis. É ter. É possuir. É mandar. É fazer pelas costas. É desejar outras. É desrespeitar as outras. É sempre querer algo em troca. É possuir seu sexo pelo resto da vida; seu sexo e de tantas outras que ele conseguir enganar. Coitadas dessas. Elas entrariam naquele ciclo do: Estou casado mas não dormimos mais juntos.
                Então seja boa. Tenha peitos, um cabelo bonito, um corpo que não seja gordo. Faça como aquelas garotas pornográficas, interprete gemidos mesmo que você não esteja sentindo absolutamente nada de bom, mesmo que seja a força, pois ele precisa saber que é homem, que tem poder e que é animal. Faça poses de cinema impossíveis ao ser humano. Comece a tentar ser fictícia. Seja uma garota fictícia. Torne-se um sonho pornográfico, a puta insaciável.
                Agora faça comida, raciocine, limpe tudo. Seja responsável e sempre saiba de tudo o que está acontecendo dentro de sua própria casa. Não é só de sexo que o homem da casa precisa. Ele precisa de uma mulher útil e que lhe traga coisas na mão.
                Era assim que ela enxergava sua mãe, sua avó, suas amigas. Presas em vidas que não eram exatamente parecidas com histórias de livros. Presas em vidas impostas por homens só porque eles saiam trabalhar trazer o dinheiro. Um dia elas acreditaram no amor acima de tudo. O amor verdadeiro. O lado bom do homem.
                Sempre tentava ser sincera com todos que se aproximavam. Chegou à conclusão de que a essência da vida era aquilo. Deveria ter algumas pessoas perdidas pelo mundo que eram ingênuas como ela e que talvez acreditassem em amizades ou amores verdadeiros. Sem aparências. Sem troca de favores. O único favor que ela queria era alguém que perguntasse como ela estava se sentindo em dias tristes, pois ela seria fiel e estaria ali nos dias tristes da outra pessoa. Quem sabe uma troca, de certa forma. Porém uma troca sincera. Uma troca de: me importo com você como ser humano.
                Mas como a vida era infeliz. Como a vida brinca de fazer ao contrário. Somos enganados por realidades feitas em novelas e livros para solteironas ou tias velhas. A realidade é mascarada. O amor é um filme de fantasia e ficção cientifica.
“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”. Em todos os livros essa frase está escrita e como ela pode se enganar? O próprio livro já avisava em sua capa que tudo não passava de MENTIRA.
                Um príncipe encantado é como aquele personagem de um livro de fantasia; aquele cachorro falante. Não existe. É uma invenção para o mundo ser um lugar mais mágico.
                Afinal, se esse tal príncipe aparecesse provavelmente seria temporário. Logo ele mostraria suas garras de fera. Seria o efeito inverso da Bela e a Fera. É assim que é, é assim que sempre foi.
                E ela continuava a chorar a noite por aquele rapaz que era tão próximo e tão amigo, que a levou para cama e no dia seguinte sumiu para sempre.



Tecnologia do Blogger.