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[RESENHA] Medo Liquido — Zygmunt Bauman

ISBN-13: 9788537800485
ISBN-10: 8537800481
Ano: 2008 / Páginas: 240
Idioma: português 
Editora: Jorge Zahar

O ser humano vive hoje em meio a uma ansiedade constante. Temos medo de perder o emprego, medo da violência urbana, do terrorismo, medo de ficar sem o amor do parceiro, da exclusão. O resultado? Temos que nos atualizar sempre e acumular conhecimentos, circulamos dentro de shopping centers, dirigimos carros blindados, vivemos em condomínios fechados. O medo é uma das marcas do nosso tempo. Em seu novo livro, Bauman faz mais um estudo singular sobre a vida contemporânea e revela um inventário dos medos atuais. O autor mapeia as origens comuns das ansiedades na modernidade líquida e examina mecanismos que possam deter a influência do medo sobre as nossas vidas. Segundo Bauman, as certezas da modernidade sólida se foram, e, com isso, a utopia do controle sobre os mundos social, econômico e natural desmoronou. Em mais um estudo singular sobre a vida contemporânea, Bauman divide com o leitor suas análises sobre o tema.

Por: Igor Zanoni Constant Carneiro Leão

RESUMO - Esta resenha procura conduzir a uma reflexão sobre a globalização negativa que tem lugar desde a década de oitenta nos principais países do mundo com efeitos maléficos sobre as condições de vida que se tornam ameaçadoras para grande parte da população notadamente pobre e discriminada. Trata-se de um texto sobre um dos maiores pensadores da crise planetária que vivemos articulando um discurso entre várias áreas da cultura moderna, em especial referente ao progresso técnico.

“Mais que em qualquer momento da história, a humanidade está diante de uma encruzilhada. Um caminho leva ao desespero e à impotência absoluta. O outro, à total extinção. Rezemos pra que tenhamos a sabedoria de escolher corretamente” — Woody Allen 

Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês radicado na Inglaterra, autor de uma vasta obra sobre a “pós-modernidade”. Muitos autores usam esse conceito e outros o recusam. Em Bauman tal conceito significa a perda da crença no progresso, na expectativa de segurança e na possibilidade de confiança no outro, tornando o viver uma experiência de risco. Nesse sentido, ele acompanha um autor que pensou pioneiramente o estatuto da modernidade como Walter Benjamim.

Todavia, nele, a pós-modernidade está associada ao período pós-1973, quando a ruptura de Bretton Woods, a crise do petróleo, as novas tecnologias e a instabilidade econômica mundial dentro de um quadro de globalização perversa e de uma ideologia neoliberal, tornam a pós-modernidade ou a modernidade líquida uma característica das sociedades avançadas marcada por uma desmontagem acelerada de seus padrões de sociabilidade. Sem perspectivas de permanência. Como resume Maria Laurinda Ribeiro de Souza, “Tudo é temporário, a modernidade é fluida - tal como os líquidos - e caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. A esse excesso de mobilidade, de demandas, de informações, corresponde, no indivíduo, um sentimento agudo não só de insuficiência, mas também de banalização das experiências”

No livro Medo Líquido, Bauman examina a ansiedade constante dos homens pósmodernos de perder o emprego, ser atingido por um grande evento natural, da violência urbana, de perder o amor do parceiro, da exclusão. Mais do que listar esses medos, o autor procura desvendar suas origens e esclarecer como eles afetam os seres humanos na atualidade. Para ele, a globalização negativa (que se contraporia a outra, positiva, de contato e auxílio mútuo entre os cidadãos dos diversos países) alterna a privação da segurança em liberdade e o oferecimento de proteção na forma de não liberdade, o que tende a gerar uma catástrofe inescapável. É preciso uma terapia contra o medo crescente, que começa com a sua compreensão profunda. Nesse sentido, ele ironiza o quadro com a epígrafe de Woody Allen vista acima. Este livro tem um interesse particular na medida em que é uma leitura articulada de alguns autores europeus na atualidade sobre os aspectos sociais do medo e das características do capitalismo global, organizada num texto fluente e claro.

Retomando as análises de Robert Castel, Bauman pensa que os países desenvolvidos construíram no pós-guerra, nos chamados “trinta anos gloriosos”, sociedades com grau de segurança jamais conhecido na história. Os perigos que ameaçam encurtar a vida são menos numerosos e mais espaçados que em outros períodos de tempo ou em outras partes do mundo. Também se têm meios eficazes de prever, evitar e enfrentar os perigos que ainda existem de morrer precocemente ou adoecer. Os seres humanos nesses países ganharam uma proteção crescente contra as forças superiores da natureza, contra a debilidade inata dos seus corpos e contra os perigos da agressão de outras pessoas. Entretanto, as pessoas ali sentem-se ameaçadas, inseguras e amedrontadas, inclinadas ao pânico e apaixonadas por tudo que se refira a novos meios de segurança e proteção.

Para explicar isto, Castel pensa que o sentimento de insegurança não deriva tanto da carência de proteção, mas, sobretudo, da “falta de clareza de seu escopo” em um universo que estabeleceu padrões de proteção sempre crescentes e antes impensáveis, sempre à frente do que é atualmente possível de atingir. Criou-se uma obsessão com insegurança e uma intolerância a qualquer falha no seu fornecimento, o que se torna a fonte mais profunda da ansiedade e do medo. Criou-se uma expectativa de que, com a continuação das descobertas científicas e das invenções tecnológicas, bem como de habilidades e esforços adequados, seria possível atingir uma segurança total ou uma vida totalmente livre do medo.

Pode-se dizer que os esforços na demanda de segurança não evitaram uma variedade moderna de insegurança marcada pela suspeita de motivos malévolos da parte de certos homens e mulheres específicos e a dificuldade de construir uma camaradagem sólida, durável e confiável. Ainda para Castel este quadro deriva da substituição de uma sociedade protegida por nexos éticos de solidariedade e comunitarismo, nos quadros dos “trinta anos gloriosos”, por uma sociedade privilegiando o indivíduo, exacerbando a fragilidade crônica dos vínculos humanos e os seus temores. Cria-se, com isso, um medo de todos em relação a todos, levando a ações defensivas no cotidiano. Hoje, pensa-se menos em segurança, isto é, em autoconfiança e auto-segurança do que em proteção, isto é, em abrigar-se das ameaças à própria pessoa.

Para Bauman, a segurança foi minada com a fragilização dos mecanismos institucionais apoiados e garantidos pelo Estado, com a falência das políticas que compuseram o Estado de Bem-Estar Social. Neste quadro houve uma ascensão dos chamados mercados ou poderes econômicos globais, fazendo com que o Estado permita que o mercado penetre na antiga lógica econômica e social que definiam sociedades reguladas e relativamente estáveis pelas políticas macro-econômicas internas e uma relativa autonomia na sua condução, num quadro mundial ordenado pelos instrumentos criados logo após a guerra. A desregulamentação das forças do mercado e a submissão do Estado à globalização negativa (globalização dos negócios, do crime e do terrorismo) não foi acompanhada pela globalização das instituições políticas e jurídicas capazes de controlá-la. 

O resultado é uma fragilidade ímpar dos vínculos humanos, lealdades comunais frágeis, debilidade de compromissos e solidariedades, sobrecarregando as tarefas relacionadas ao estabelecimento, à manutenção e à operação diária do estado social, levando a uma crise das contas públicas e ao enfraquecimento da rede de proteção dos direitos sociais. Esta é uma lógica mercantil na medida em que o mercado prospera nas condições de insegurança, aproveitando os medos e o sentimento de desamparo dos seres humanos. O desmantelamento do estado social, dos sindicatos e outros instrumentos de barganha coletiva fizeram os indivíduos procurarem soluções individuais para problemas socialmente produzidos, de modo inadequado e ineficaz. Há uma privatização dos problemas em um mundo cada vez mais incerto e imprevisível e, assim, perigoso. Há um sentimento de liberdade sem segurança, tão perturbadora e pavorosa quanto a segurança sem liberdade.

Este é um quadro de “temores existenciais” que solapam a confiança dos indivíduos na medida em que se fragilizam os empregos e as empresas que os oferecem, nossos parceiros e nossas redes de amizade, a posição que ocupamos na sociedade mais ampla e a autoconfiança. O “progresso” se torna ameaçador e não uma manifestação de otimismo e expectativa de felicidade. O medo é o da exclusão, ou seja, de se tornar um dejeto do progresso. Tudo isso gera um conjunto de atividades que reafirmam a nossa debilidade e limitação diante da desordem, quando nos concentramos nas poucas coisas que podemos fazer para prevenir perigos, como buscar exorcizar o espectro da pressão alta, do alto nível de colesterol, do estresse ou da obesidade.

Também o crime e os perigos a ele relacionados recebem um peso e uma atenção desproporcional, sendo exposto ao público como fruto de “mendigos reincidentes na impertinência, refugiados em deslocamento, imigrantes a serem expulsos, prostitutas nas calçadas e outros tipos de dejetos sociais que povoam as ruas das metrópoles para o desgosto das „pessoas decentes‟. Por esse motivo a batalha contra o crime é apresentada como um „excitante espetáculo midiático-burocrático‟”, como sugere a análise de Loïc Wacquant, retomada por Bauman. Para este a globalização é um processo parasitário e predatório que se alimenta da energia extraída dos corpos dos Estados-nação e outros meios de proteção de que seus súditos já possuíram no passado. Estes Estados estão perdendo sua influência sobre o curso da história na visão de Jacques Attali ou, como sugere Richard Rorty, “o fato central da globalização é que a situação econômica dos cidadãos dos Estados-nação saiu do controle das leis do Estado”.

Ainda para Rorty, a ausência de uma comunidade global organizada politicamente faz com que os muito ricos possam operar cuidando apenas dos seus interesses, com uma camada de intelectuais que participam de conferências internacionais dedicadas a avaliar os danos causados pelos muito ricos. Além desses grupos cosmopolitas há também um grupo social global composto de traficantes de drogas, terroristas e outros criminosos, bem como uma camada de intelectuais que celebram em todo o mundo o poder da nova “superclasse global”, cuja mensagem corresponde às vantagens do neoliberalismo para todo o mundo. O neoliberalismo reforça o poder dos mercados desregulamentados introduzindo-se em todos os domínios da vida humana inclusive os serviços sociais e previdenciários do Estado de Bem-Estar. Ele tem uma visão dos mercados individualista, não como estruturas históricas e sociais construídas pacientemente. 

Ainda para Rorty, a ausência de uma comunidade global organizada politicamente faz com que os muito ricos possam operar cuidando apenas dos seus interesses, com uma camada de intelectuais que participam de conferências internacionais dedicadas a avaliar os danos causados pelos muito ricos. Além desses grupos cosmopolitas há também um grupo social global composto de traficantes de drogas, terroristas e outros criminosos, bem como uma camada de intelectuais que celebram em todo o mundo o poder da nova “superclasse global”, cuja mensagem corresponde às vantagens do neoliberalismo para todo o mundo. O neoliberalismo reforça o poder dos mercados desregulamentados introduzindo-se em todos os domínios da vida humana inclusive os serviços sociais e previdenciários do Estado de Bem-Estar. Ele tem uma visão dos mercados individualista, não como estruturas históricas e sociais construídas pacientemente. 

Dessa forma, a sociedade deixa de ser protegida pelo Estado de maneira adequada expondo-se a forças que ele não controla mais nem espera recapturar. A contrapartida dessa situação é a substituição do Estado social por um Estado prisional, crescendo a população carcerária na medida em que se focam o crime e os perigos que ameaçam a segurança corporal dos indivíduos e as propriedades de uma maneira mais rigorosa, ligada ao sentimento de vulnerabilidade social, decorrente da substituição da solidariedade por uma precária autoconfiança individual. Cria-se um excesso de cuidado voltado para proteção em lugar da segurança. Por outro lado esse Estado da proteção social não é particularmente amigo da democracia uma vez que não se baseia na fé que o povo tem no futuro e na confiança otimista em sua capacidade de agir. Cria-se assim um perigo para um Estado baseado na defesa da lei e da ordem e da democracia moderna. Há uma “inclinação totalitária” no Estado líquido-moderno.

Nessa situação difunde-se uma ignorância de que a ameaça paira sobre as pessoas comuns e do que deve ser feito diante da incerteza ou do medo. Este é precisamente o medo líquido pós-moderno. Ele cria uma visão interior de mundo marcada pela insegurança e vulnerabilidade rotineiras, mesmo na ausência de uma ameaça genuína. Os medos são sentidos de forma ubíqua, podendo vir de qualquer canto, dos lares, das ruas escuras, das telas dos televisores, dos locais de trabalho, do metrô e de catástrofes naturais ou agressões como crimes violentos, poluição da água e do ar, desemprego, atrocidades terroristas e assim por diante. Para Bauman, esse quadro está intimamente ligado à globalização negativa, à crise do Estado social e ao neoliberalismo. A luta contra o medo passou a ser tarefa da vida inteira, com os perigos considerados companhias permanentes da vida humana. 

Nessas condições vive-se com uma percepção de “riscos” ou perigos cuja probabilidade acreditamos poder calcular, embora esse cálculo seja apenas o da probabilidade de que as coisas dêem errado sem que possam ser mais exatamente previstas, e a humanidade vive entre icebergs, financeiro, nuclear, ecológico, social, terrorista ou o do fundamentalismo religioso ou, ainda o da implosão da civilização que se observa com a militarização do Oriente Médio ou a visita do furacão Katrina a Nova Orleans. Essas observações derivam de uma leitura que nosso autor faz de Jacques Attali, indicando que o incompreensível virou rotina com a lei desaparecendo de vista e com o recolhimento da nossa antiga civilização. Acompanhando os reality shows, temos a sensação de uma exclusão iminente e inevitável. O Big Brother é uma metáfora nua de nossa vida.

Para enfrentar esses medos somos frágeis, pois não entendemos sua origem e sua lógica, faltam-nos habilidades para agir nem concebermos quais seriam essas habilidades. Os medos não fazem sentido e devem ser enfrentados cada vez mais individualmente com escassos e inadequados recursos para maioria da população. A partir daí podemos listar um conjunto de medos e a forma como lidamos com eles. Assim o medo da morte, inerente ao ser humano, é exponenciado nessa situação de exclusão iminente. As maneiras com que a sociedade líquido-moderna lida com esse medo são diversas, mas um dos mais importantes é a desconstrução da morte, criado pelos meios técnicos com que se procura afastar uma a uma as causas pelas quais se morre, como se a morte não fosse um destino comum. Por outro lado, a banalização da morte faz com que ela passe de uma experiência única de cada um para o domínio das perpétuas encenações da morte que vemos nos meios de comunicação ou a nossa volta quando os vínculos humanos se tornam frágeis e fáceis de desfazer. Finalmente ocorre um desligamento da idéia da morte vis a vis as preocupações com a eternidade, na medida em que muda a forma pela qual a morte é pensada e temida, incorporando-se ao fluxo da vida. Paradoxalmente, muitas batalhas serão vencidas na guerra perpétua contra o medo, mas a vitória final é inalcançável.

Bauman faz uma reflexão a partir desse contexto sobre o medo e o mal na sociedade moderna. Esses conceitos se referem um ao outro, um apontando para o mundo e o outro para os sentimentos interiores. Há uma longa história na civilização ocidental sobre ambos, realçando a idéia de que a presença do mal, qualquer que ele fosse – tanto pragas e dilúvios como infelicidades individuais – era um problema moral que deveria ser enfrentado, por exemplo, com a contrição e a expiação.

O que caracteriza a nossa época desde as reflexões de Hannah Arendt sobre a violência e o mal perpetrados pelos regimes totalitários, como o nazismo na primeira metade do século passado, é o mal burocraticamente administrado e realizado, o que lhe confere características de racionalidade e banalidade. Na época líquido-moderna, autores como Susan Neiman apontam para o fato de que a humanidade se vê enfrentando males produzidos pelo homem tão cruéis e imprevisíveis quanto males naturais, como foi no século XVIII o terremoto de Lisboa. Há, em outras palavras, uma transformação do mal moral em natural, graças às novas armas e ferramentas fornecidas pela ciência e tecnologias modernas.

A conseqüência mais importante é uma crise de confiança na vida uma vez que o mal pode estar em qualquer lugar e que todos podem estar, de alguma forma, a seu serviço, gerando uma desconfiança de uns nos outros. O outro é entendido como estranho, anônimo, a multidão com que cruzamos diariamente nas grandes cidades e que é fonte de uma ameaça difusa em vez de nos dar um sentimento de segurança e garantia contra o perigo. Este é um dado novo uma vez que a cidade sempre foi sinônimo de proteção e segurança ao longo da história. Na atualidade, ao mesmo tempo, as relações humanas transformaram-se em fontes de ansiedade e intranqüilidade. É por isto que atualmente buscamos redes cada vez mais amplas de amigos e amizades, ao alcance do telefone celular ao invés de investirmos em parcerias amorosas ou entre amigos. Parece mais fácil e seguro compensar a falta de qualidade com a quantidade uma vez que não há mais amigos para toda a vida e inimigos eternos. As relações pessoais mudam e se movem a todo o momento, como numa neblina, ao mesmo tempo do medo e do mal. 

Em um contexto semelhante, o mal atingiu um nível sem precedentes uma vez que no último século a humanidade atingiu uma capacidade de se autodestruir sem deixar nenhum homem que pudesse refletir sobre isso e aprender uma lição. Não se trata apenas de uma ameaça de destruição mútua, mas de várias outras formas de autodestruição não intencionais paradoxalmente junto com os esforços humanos para tornar o planeta mais hospitaleiro e mais agradável para as pessoas viverem

Bauman lembra dados levantados por Jacques Attali indicando que metade do comércio mundial e do investimento global beneficia apenas 22 países ou 14% da população do planeta, enquanto os 49 países mais pobres ou 11% da população recebem apenas metade de 1% do produto global, o equivalente a renda somada dos três homens mais ricos do planeta. Há uma polarização da renda e um aumento da desigualdade coerentes com as “boas práticas” econômicas atuais, apoiadas no neoliberalismo e no contexto da globalização negativa. Ao mesmo tempo os padrões de vida alcançados pelo mundo - desenvolvido basicamente nos Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental e Austrália – não podem ser generalizados para toda a humanidade devido aos limites físicos do planeta. 

Na verdade, os modernos desenvolvimentos naquela área podem ser usufruídos localmente, mas mobilizando um espaço global e recursos globais, dessa forma fechando a possibilidade de se tornarem universais. O desenvolvimento moderno é basicamente perdulário e autodestrutivo, seus objetivos ficam cada vez mais fora de alcance. Como mostrou Ivan Illich, típico desse desenvolvimento é a substituição de um estilo de vida saudável por uma cadeia de intervenções médicas-farmacêuticas continuamente ampliada, o que é a principal força motora da medicina moderna. Parece haver uma catástrofe última e iminente se aproximando graças à lógica interna da vida moderna. Na etapa atual, grande parte do progresso técnico consiste em reparar os danos provocados pelos esforços para acelerar o desenvolvimento e o próprio progresso.

Isto vale mesmo pra fenômenos naturais, uma vez que a maior parte dos danos e mortes causados pelo tsunami e terremoto na Tailândia ou pelo furacão Katrina em New Orleans e proximidades poderiam ter sido evitados. Na verdade esses danos se originaram não pela falta de informação e de tempo, mas pela falta de dinheiro dos mais pobres, a falta de seguro pessoal para estes, a ausência de abrigos suficientes, fazendo com que as conseqüências para os seres humanos desses desastres não tenham sido um produto natural, mas sim um produto humano, já que as pessoas afetadas eram em grande parte pessoas pobres e negras. As vítimas dessas catástrofes naturais foram os excluídos da ordem e da modernização, vítimas da manutenção da ordem e do progresso econômico. Isto vale também para fatos como a limitação biológica da vida humana. Atualmente a riqueza moderna oferece a chance de atingir uma idade avançada, mas não aos mais pobres. O problema maior é a redistribuição social dos desastres de origem natural ou artificial, separando cada vez mais a humanidade em parte não semelhante. 

Existe difundido um “fetichismo” tecnológico segundo o qual todo o problema ético como os acima podem ser encaminhados com a ajuda dos produtos das indústrias de biotecnologia, farmacêutica ou bioengenharia, tranqüilizando as consciências e criando uma cegueira moral. Este fetiche é político, criando uma crescente incapacidade de compreensão do que podemos fazer com nossas ações e de suas conseqüências. Lembremos aqui o desnecessário bombardeio atômico sobre Hiroshima e Nagasaki. Neste contexto temos medo da nossa incapacidade de nos defender, o medo de não poder escapar de uma situação amedrontadora.

Até aqui estes processos ocorrem numa globalização negativa que quebra fronteiras frágeis por pressões de forças externas formidáveis consistindo na globalização altamente seletiva do comércio e do capital, da vigilância e da informação, da coerção e das armas, do crime e do terrorismo, desdenhando a soberania nacional e as fronteiras entre os estados. Os pobres são apanhados numa espiral de caos, a justiça se esvai com a segurança e há um espectro de vulnerabilidade pairando sobre todo o planeta. Como indica o autor “O que torna nosso mundo vulnerável são principalmente os perigos da probabilidade não calculável, um fenômeno profundamente diferente daqueles que o conceito de „risco‟ comumente se refere... Possivelmente, o tipo atual de incerteza planetária tende a permanecer incurável até que a globalização negativa seja suplementada e controlada pela positiva e que as probabilidades se tornem mais passíveis de cálculo. As raízes de nossa vulnerabilidade são de natureza política e ética” (p. 129). 

Raciocínios semelhantes valem para a guerra contra o terrorismo ou outros fenômenos líquido-modernos, pois estes fenômenos existem graças, em grande parte, às enormes dívidas dos países pobres, ao fechamento dos mercados mais ricos para os seus produtos, à falta de educação para 115 milhões de crianças privadas de acesso a qualquer tipo de escola ao gasto exorbitante com armamentos e à falta de ajuda internacional aos mais pobres. Este é um caldeirão de religião, nacionalismo e violência que ferve em grande parte do mundo.

Pensamos que Medo Líquido é um dos textos do autor que mais realçam a importância do nível econômico para a vida moderna, de leitura instigante e clara. A conclusão do autor é que a globalização negativa precisa ser controlada e domada de molde a evitar uma catástrofe inescapável. O início de uma terapia contra o medo crescente é compreender isso, ligando um novo pacto entre os intelectuais e o povo, este significando a humanidade em seu conjunto, negociado e trazido à luz. Citando Pierre Bourdieu, “Aqueles que têm a chance de dedicar suas vidas ao estudo do mundo social não podem recolher-se, neutros e indiferentes diante da luta da qual a aposta é o futuro do mundo”

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BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. SOUZA, Maria Laurinda Ribeiro de. Violência. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005. As referências a outros autores constam no livro utilizado aqui de Zygmunt Bauman e nele devem ser buscadas 
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