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[RESENHAS #122] Vidas Desperdiçadas — Zygmunt Bauman



Em Vidas Desperdiçadas, Bauman ilumina com suas reflexões esse cenário sombrio em que se encontra o nosso mundo. Preocupado com o ambiente em que vivemos - que ele compara com o do programa televisivo BIG BROTHER, no qual todos controlam e querem decidir quem será eliminado -, sua análise brilhante e aguda abre-se para recuperar uma perspectiva humanista do universo social.

Para onde mandar os indivíduos que não possuem mais nenhuma utilidade e que, por sua vez, não podem mais ser incorporados a nenhum sistema produtivo? É essa a pergunta que orienta toda a discussão do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em sua obra recém-publicada Vidas desperdiçadas (2005). O autor nos brinda com uma instigante reflexão acerca de uma problemática bastante contundente dos últimos tempos: os problemas ocasionados pela produção e remoção do “refugo humano”. O mundo está cheio, afirma Bauman, e não se trata de uma constatação física e/ou geográfica, mas sim de uma preocupação política e social. Existem enormes extensões de terra, e muitas delas, até mesmo habitadas por um número ínfimo de pessoas, o que não existe é espaço social para os chamados “párias da modernidade”, os inadaptados, os expulsos, os marginalizados, enfim, o lixo humano que foi produzido pela sociedade do consumo. O grande problema dos Estados, em nossos dias, é pensar alternativas de remoção desse refugo humano que insiste em tornar a paisagem desagradável, contaminando-a com seu aspecto desconcertante.

No primeiro capítulo, denominado No começo era o projeto, o autor discute a idéia de que a produção do refugo humano está intrinsecamente ligada à construção de uma ordem universal. A modernidade foi construída sob a idéia de que uma “boa sociedade” seria aquela que disponibilizaria emprego para todos; nesse sentido, os “redundantes”, desse período, seriam o exército de reserva que estaria esperando por sua chance na fila de espera dos desempregados. Os redundantes de hoje, não têm esperança de serem chamados de volta ao serviço ativo, vão direto para o depósito de dejetos humanos. É nessa perspectiva que Bauman distingue a sociedade dos produtores da sociedade dos consumidores. Durante todo o século XIX, a imagem mais recorrente, foi a do “produtor potencial”, aquele indivíduo que, para ser aceito como tal, bastaria preencher os requisitos propostos pela companhia dos produtores. A idéia do “eterno retorno” que se sustentava devido à formação de fortes unidades de reserva, foi minada, segundo o autor, pelo advento da sociedade do consumo. Para ser admitido na companhia dos consumidores, não basta reivindicar o status de consumidor para si, e concomitantemente não existe exército de reserva para os consumidores falhos; a única certeza que os mesmos possuem é que, excluí- dos do único jogo disponível, não serão mais jogadores: “Os desempregados da sociedade de produtores (incluindo aqueles temporariamente afastados da linha de produção) podem ter sido desgraçados e miseráveis, mas seu lugar na sociedade era seguro e inquestionável” (p. 22).

As preocupações com a redundância, atualmente, diferem dos problemas vivenciados e registrados pelas gerações anteriores. Apoiando-se no estudo de Mary Douglas1 sobre os rituais de poluição em vá- rios povos e culturas, onde a autora considera que os conceitos de pureza e sujeira fazem parte de um “todo maior”, Bauman reafirma a tese de que a idéia de eliminação não é um movimento negativo, mas um esforço positivo para organizar o ambiente. Para criarmos o novo faz-se necessário alterarmos algo que já existe, o novo não pode nascer a não ser que algo seja transformado. Em situação ambivalente, o mesmo lixo que tende a ser repudiado, se torna indispensável ao processo criativo: “o lixo é sublime; uma mistura singular de atração e repulsa que produz um composto também singular, de terror e medo” (p. 32).

Outro elemento indicado pelo autor como aliado e cúmplice do lixo é o excesso, o qual é exemplificado através do enorme conteúdo informacional proveniente da internet e que passamos a dispor a partir de uma pequena consulta a um site de busca. Como a informação se tornou o bem mais precioso dos últimos tempos e o excesso da mesma é grande demais para ser despejado nos cérebros humanos, fez-se necessário a criação de um depósito de refugo da informação, e isso só foi possível graças à tecnologia computacional. A produção de lixo informacional, tal como toda a atividade produtora de refugo, tem o poder de autopropulsão, ou seja, os esforços para remover o lixo produzem mais lixo. A propósito, Bauman, em 29 de Novembro de 2002, fez uma busca na internet para encontrar páginas na web que se referiam à noção de “refugo” e constatou um grande número de sites tratando do tema do lixo, isso em comparação com os grandes temas discutidos atualmente na agenda pública, entre os quais: desemprego, terrorismo, fome, racismo e pobreza. Apesar de aparecer nas manchetes com certa relevância, o tema do lixo tornou-se uma das maiores preocupações contemporâneas, e isso num plano global. Já que ele figura entre os temas mais discutidos dos últimos tempos, por que sempre o relegamos a um segundo plano? Para Bauman, a “história em que e com que crescemos, não tem interesse no lixo, e o que nos interessa é o produto e não o refugo”. Dois tipos de caminhões deixam todos os dias o pátio da fábrica, um com destino as lojas de mercadorias e departamentos e outro para os depósitos de lixos, mas a nossa história indica que devemos valorizar apenas o primeiro. Somente passamos a observar o lixo do segundo, quando seu excesso se torna uma ameaça concreta. Da mesma forma, só passamos a enxergar os “dejetos humanos” quando eles aparecem à nossa porta devido à falha de nosso sistema de defesa. Até isso acontecer, nós os tratamos com indiferença, o que lhes assegura o status de “problema angustiante mais guardado nos nossos dias”

No segundo capítulo Serão eles demasiados?, a obra contém a análise focada naquele que seria o refugo do progresso econômico. O capítulo inicia-se com uma discussão acerca da idéia de “superpopula- ção” e de como ela afetaria o progresso da sociedade. A visão de que o crescimento populacional colocaria em risco nossa existência por falta de alimentos suficientes se opunha àquilo que o sonho da modernidade prometia, pois numa sociedade de produtores, o crescimento populacional, seria aquilo que garantiria a cura para a escassez através da força de trabalho: “a terapia para o excesso de população era mais população”. A questão é que não pode haver um número demasiado de “nós”. Como, em nossos dias atuais, é o excesso “deles” que nos preocupa, tentamos correr atrás de estratégias discretas que possam garantir a extirpação desse mal que tanto nos aflige. O exemplo de Botsuana, em que empresas farmacêuticas não mostraram empenho para fornecer a um preço acessível remédios para combater a epidemia de AIDS que se abateu por toda a região, fazendo com que a expectativa de vida local caísse de 70 para 36 anos, é um dado importante para analisarmos o grau de “racionalidade” empregado nessas estratégias discretas

É importante, neste ponto, destacar a discussão sobre o “medo do outro”. Medo esse que perpassa toda nossa existência. O que existiria nos seres humanos que tanto nos amedronta? O sociólogo inicia a reflexão situando-nos na descrição do “medo cósmico”, a partir das idéias do filósofo russo Mikhail Bakhtin. Esse medo consistiria na “emoção humana, demasiadamente humana”, desencadeada pela magnificência imaterial e desumana do universo. Diante do poder extraordinário do universo, vemo-nos como criaturas vulneráveis e assustadas. “O medo cósmico é também o horror do desconhecido, o terror da incerteza” (p. 61). Vulnerabilidade e incerteza são as duas qualidades da condição humana a partir das quais se molda o “medo oficial”, o medo do poder humano, do poder criado e manipulado pelo homem. Bauman trabalha esses argumentos de um ponto de vista filosófico para entendermos que a incerteza e insegurança (ontológicas) são provocadas pelo medo do desconhecido, o “estranho” produz nos seres humanos sensações desestabilizadoras. Para o autor, as imagens folclóricas de demônios que, no passado, eram usadas para incutir os difusos temores sobre segurança foram transformadas em perigo e risco. Não é à toa que os imigrantes e os recém-chegados são vistos com desconfiança, um prato cheio para o Estado, um “outro” desviante ideal.

No terceiro capítulo, A cada refugo seu depósito de lixo, o sociólogo apresenta as estratégias modernas de controle das massas desordenadas que brotam nos arredores da cidade. Os presídios se configuram como os principais depósitos de dejetos humanos da contemporaneidade. Os redundantes constituem um alvo fácil para a descarga de ansiedades provocadas pelos temores generalizados. “Os poderes do estado não podem fazer nada para aplacarem a incerteza, muito menos eliminá-la” (p. 84). O máximo que o Estado pode fazer é mudar seu foco para objetos alcançáveis, e os produtos rejeitados pela globalização se encaixam perfeitamente nesse papel. “Procuramos em vão por outros escoadores mais adequados, os temores e ansiedades se despejam sobre alvos à mão e reemergem como o medo e a raiva populares dirigidos aos estranhos que vivem nas redondezas” (p. 85).

Assistimos à passagem de um modelo de comunidade includente do “Estado social” para um Estado excludente “penal”, voltado para o controle do crime. Os infratores, cada vez mais, deixam de ser reconhecidos como cidadãos destituídos em busca de apoio, e são mostrados, em vez disso, como indivíduos censuráveis, imprestáveis e demasiado perigosos. As fronteiras, por sua vez, permitem a saída, buscam se proteger contra o ingresso indesejável de unidades provenientes do outro lado. Bauman indica que um dos principais resultados da modernidade (talvez o mais fatal) é a “crise aguda de remoção do lixo humano”. A modernidade tende a morrer sufocada, em meio a dejetos criados por ela mesma. O volume superou a capacidade de controle. O planeta está cheio e não há “terras vazias” para servir de depósito de lixo. Agora, busca-se desesperadamente resolver os problemas globais de maneira local, “os depósitos de lixo devem ser estabelecidos dentro da localidade que as tornou supérfluas”; é dessa maneira que surgem os hiperguetos2 . Os guetos podem ser voluntários ou involuntários. Os guetos tradicionais, apesar de terem sido enclaves cercados por barreiras (físicas e sociais), não eram depósito de lixo para a população excedente. O novo gueto, nas palavras de Wacquant, citado por Bauman, “não serve de mão de obra industrial descartável, mas de depósito de lixo”. De amortecedor coletivo a mecanismo puro e simples de exclusão social. As prisões, que antes possuíam a tarefa de reciclagem, se tornaram também depósitos de lixo. Reciclar não é mais lucrativo, então é preciso acelerar a “biodegradação”. Os medos contemporâneos, além de provocar sensações desestabilizadoras, também dissolvem a confiança, que segundo o autor é o sustentáculo da vida humana. “Sem confiança a rede de compromissos humanos se desfaz, tornando o mundo um lugar ainda mais perigoso e assustador” (p.115)

No último capítulo intitulado “A cultura do lixo”, Bauman nos mostra que na história confusa da produção e remoção do refugo humano, a visão de “eternidade” tem ocupado um papel crucial. “Na infinitude tudo é reciclado sem parar, como na idéia hindu de eterno retorno e encarnação” (p. 118). A idéia de redundância não está presente no plano da infinitude, a infinitude, por sua vez, liga-se à idéia de Deus e da Divina cadeia do ser, sendo que aí nada pode ser redundante. “Se a vida pré-moderna era uma recitação diária da duração infinita de todas as coisas, com exceção da existência mortal, a vida lí- quido-moderna é uma recitação diária da transitoriedade universal” (p. 120).

Nessa ótica, a redundância seria uma invenção contemporânea, produto do excesso, característica marcante da modernidade. Ao convite para uma discussão sobre “cultura e eternidade”, o autor indica que nós, seres humanos, sabemos que somos mortais, destinados a morrer; e, conviver com essa possibilidade nos causa uma forte inquietação. Se não fosse pela cultura, essa convivência seria impossível, é ela que consegue transformar o horror da morte numa passagem para outra vida, a qual é marcada pela eternidade. Quando o medo da morte sai de cena, aparece o medo da vida, que, por sua vez, faz com que tenhamos uma abordagem calculista da vida. Não existe uma população humana que não tenha a eternidade como algo evidente. A eternidade, tal como foi pensada nas sociedades pré-modernas, não se sustenta mais na sociedade líquido-moderna. A espera e o atraso se transformaram em estigmas de inferioridade. Vivemos, segundo Bauman, na era do curto-prazismo. “Esperar é uma vergonha, e a vergonha de esperar recai sobre aquele que espera” (p. 135). E, conclui: “Vivemos na era do desengajamento, da desconfiança, do esquecimento”. A viagem é mais desejada que a chegada, não é à toa que beleza e felicidade são os ideais mais almejados da modernidade, porém ninguém nunca será belo e feliz, por completo. Não importa se o objetivo será alcançado, persistir na sua busca já é suficiente, é esse percurso que dá sentido à nossa existência

Em Vidas desperdiçadas, Zygmunt Bauman nos convida a uma reflexão apurada do caminho trágico a ser trilhado por indivíduos em diversas partes do mundo, caminho esse que nos conduz a uma exclusão forçada e que é, ao mesmo tempo, inerente ao convívio social. Astúcia reflexiva e sensibilidade aguçada fazem dessa obra um item indispensável para aqueles que se preocupam com o destino da humanidade
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